{"id":4601,"date":"2013-01-11T12:00:31","date_gmt":"2013-01-11T14:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=4601"},"modified":"2022-09-04T21:16:23","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:23","slug":"a-horrivel-verdade-sobre-o-estupro-em-nova-delhi-por-sonia-faleiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumjustica.com.br\/en\/a-horrivel-verdade-sobre-o-estupro-em-nova-delhi-por-sonia-faleiro\/","title":{"rendered":"A horr\u00edvel verdade sobre o estupro em Nova D\u00e9lhi, por Sonia Faleiro"},"content":{"rendered":"<p><em>(O Estado de S. Paulo)<\/em> <strong>Recente caso traz \u00e0 tona como os abusos sexuais na capital s\u00e3o comuns e a falta de justi\u00e7a<br \/>\n<\/strong><br \/>\nMorei 24 anos em Nova D\u00e9lhi, uma cidade onde o ass\u00e9dio sexual \u00e9 t\u00e3o regular quanto o caf\u00e9 da manh\u00e3. Todos os dias, em algum lugar da cidade, h\u00e1 um caso de estupro.<\/p>\n<p>Quando adolescente, aprendi a me proteger. Nunca ficava sozinha, se poss\u00edvel, e andava depressa, cruzando os bra\u00e7os sobre o peito, recusando todo contato visual ou mesmo um sorriso. Abria caminho no meio da multid\u00e3o curvando os ombros para frente, e evitava sair de casa depois do escurecer, se n\u00e3o fosse num carro particular. Numa idade em que as jovens em todos os outros lugares come\u00e7am a fazer suas primeiras experi\u00eancias com um estilo mais ousado de vestu\u00e1rio, eu usava roupas duas vezes maiores do que o meu tamanho. Ainda n\u00e3o consigo me vestir de forma a parecer atraente sem ter a sensa\u00e7\u00e3o de estar me expondo ao perigo.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou quando cheguei \u00e0 idade adulta. O spray de pimenta n\u00e3o existia ainda e minhas amigas, todas de classe m\u00e9dia ou m\u00e9dia alta como eu, carregavam alfinetes ou outros objetos como armas no caminho da universidade e do emprego. Uma delas andava com uma faca e insistia que eu devia fazer o mesmo.<\/p>\n<p>Recusei, mas havia dias em que ficava t\u00e3o enraivecida que poderia us\u00e1-la &#8211; ou, pior ainda, algu\u00e9m poderia us\u00e1-la contra mim.<\/p>\n<p>O persistente concerto de assobios, miados, palavras sibiladas, alus\u00f5es sexuais ou amea\u00e7as abertas continuaram. Grupos de homens andavam pelas ruas vadiando, e sua forma de comunica\u00e7\u00e3o eram as can\u00e7\u00f5es de filmes indianos que viviam cantando, repletas de duplos sentidos.<\/p>\n<p>Para deixar claras suas inten\u00e7\u00f5es, mexiam a p\u00e9lvis para frente quando uma mulher passava.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram apenas os ambientes p\u00fablicos que eram pouco seguros. At\u00e9 na reda\u00e7\u00e3o de uma importante revista onde eu trabalhava, no consult\u00f3rio de um m\u00e9dico, at\u00e9 mesmo numa festa privada &#8211; era imposs\u00edvel escapar da intimida\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia 16 de dezembro, como o mundo agora sabe, uma mulher de 23 anos voltava para casa com o namorado depois do assistir ao filme As aventuras de Pi num shopping center de D\u00e9lhi. Quando tomaram o que lhes pareceu um \u00f4nibus, os seis homens que estavam no ve\u00edculo estupraram e torturaram a mulher de maneira t\u00e3o brutal que destru\u00edram seus intestinos. O \u00f4nibus fora apenas um chamariz. Eles espancaram brutalmente tamb\u00e9m o namorado da jovem e jogaram os dois fora do ve\u00edculo, deixando-a \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>A jovem n\u00e3o se rendeu. Ela come\u00e7ara aquela noite vendo um filme sobre um sobrevivente, e provavelmente sentiu-se determinada a sobreviver tamb\u00e9m. Ent\u00e3o ela realizou outro milagre. Em D\u00e9lhi, uma cidade onde a degrada\u00e7\u00e3o das mulheres \u00e9 comum, dezenas de milhares de pessoas foram \u00e0s ruas e enfrentaram a pol\u00edcia, as bombas de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo e os canh\u00f5es de \u00e1gua para expressar sua revolta. Foi o maior protesto jamais realizado na \u00cdndia contra a agress\u00e3o sexual e o estupro at\u00e9 aquele momento, e desencadeou manifesta\u00e7\u00f5es em toda a na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A fim de proteger a identidade da v\u00edtima, seu nome n\u00e3o foi divulgado.<\/p>\n<p>Mas embora ela continue sem nome, n\u00e3o ficou sem rosto. Para v\u00ea-lo, bastou que as mulheres se olhassem no espelho. A plena dimens\u00e3o da sua vulnerabilidade finalmente foi compreendida.<\/p>\n<p>Quando fiz 26 anos, mudei-me para Mumbai. A megal\u00f3pole comercial e financeira tem sua carga de problemas espec\u00edficos, mas, em termos culturais, \u00e9 mais cosmopolita e liberal do que D\u00e9lhi. Ainda zonza com a liberdade rec\u00e9m-conquistada, comecei a fazer mat\u00e9rias sobre o bairro da prostitui\u00e7\u00e3o e percorria sub\u00farbios perigosos tarde da noite &#8211; sozinha e usando transporte p\u00fablico. Acho que a minha experi\u00eancia em D\u00e9lhi teve um resultado positivo: fiquei agradecida pelo ambiente comparativamente seguro de Mumbai e resolvi aproveitar ao m\u00e1ximo.<\/p>\n<p>Mas a jovem jamais ter\u00e1 esta oportunidade. Na manh\u00e3 de s\u00e1bado, 13 dias depois de ter sido brutalizada, esta estudante de fisioterapia, que sem d\u00favida sonhara em melhorar a vida das outras pessoas, perdeu a sua. Morreu por fal\u00eancia m\u00faltipla dos \u00f3rg\u00e3os.<\/p>\n<p>A \u00cdndia tem uma legisla\u00e7\u00e3o contra o estupro; assentos reservados para as mulheres nos \u00f4nibus, policiais femininas; linhas especiais para pedir a ajuda da pol\u00edcia. Mas estas medidas n\u00e3o t\u00eam tido efici\u00eancia diante de uma cultura patriarcal e mis\u00f3gina. Trata-se de uma cultura que acredita que o pior aspecto do estupro \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o da v\u00edtima, que nunca mais poder\u00e1 encontrar um homem para casar com ela &#8211; e que a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 casar com o estuprador.<\/p>\n<p>Estas cren\u00e7as n\u00e3o se restringem \u00e0s salas de estar, mas s\u00e3o expressas abertamente. Nos meses anteriores ao estupro coletivo, alguns pol\u00edticos de destaque atribu\u00edram o aumento das estat\u00edsticas sobre estupro \u00e0 crescente utiliza\u00e7\u00e3o dos celulares pelas mulheres e ao fato de elas sa\u00edrem \u00e0 noite. &#8220;Somente porque a \u00cdndia conseguiu a liberdade depois da meia-noite n\u00e3o significa que as mulheres possam se aventurar a sair depois do anoitecer&#8221;, disse Botsa Satyanarayana, l\u00edder do Partido do Congresso do Estado de Andhra Pradesh.<\/p>\n<p><strong>Den\u00fancias.<\/strong> Mudar \u00e9 poss\u00edvel, mas as pessoas devem denunciar logo os casos de estupro e de agress\u00e3o sexual para que a pol\u00edcia possa realizar as investiga\u00e7\u00f5es, e os casos levados aos tribunais possam tramitar rapidamente e n\u00e3o demorar anos a fio. Dos mais de 600 casos de estupro relatados em Nova D\u00e9lhi em 2012, somente um levou \u00e0 condena\u00e7\u00e3o. Se as v\u00edtimas acreditam que receber\u00e3o justi\u00e7a, se mostrar\u00e3o mais dispostas a falar. Se os supostos estupradores temerem as consequ\u00eancias de suas a\u00e7\u00f5es, n\u00e3o atacar\u00e3o as mulheres nas ruas impunemente.<\/p>\n<p>As dimens\u00f5es dos protestos p\u00fablicos e na m\u00eddia deixaram claro que o ataque constituiu um divisor de \u00e1guas. A horr\u00edvel verdade \u00e9 que a jovem atacada no dia 16 teve mais sorte do que muitas v\u00edtimas de estupro. Ela foi uma das raras mulheres que receberam algo parecido com justi\u00e7a. Foi hospitalizada, sua declara\u00e7\u00e3o foi gravada e em poucos dias todos os seis suspeitos do estupro foram presos e, agora, est\u00e3o sendo processados por assassinato. Tal efici\u00eancia \u00e9 algo incomum na \u00cdndia.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi a brutalidade das agress\u00f5es contra a jovem que tornou sua trag\u00e9dia inusitada; foi o fato de que esta agress\u00e3o, finalmente, provocou uma resposta.<\/p>\n<p><em>Publicado originalmente no The New York Times. <\/em><br \/>\n<em>Tradu\u00e7\u00e3o de Anna Capovilla<\/em><\/p>\n<p><strong>Sonia Faleiro<\/strong> \u00e9 autora de\u00a0<em>Beautiful Thing: Inside the secret world o Bombay&#8217;s dance bars<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/\">http:\/\/www.agenciapatriciagalvao.org.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4187&amp;catid=43%2F<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(O Estado de S. Paulo) Recente caso traz \u00e0 tona como os abusos sexuais na capital s\u00e3o comuns e a falta de justi\u00e7a Morei 24 anos em Nova D\u00e9lhi, uma cidade onde o ass\u00e9dio sexual \u00e9 t\u00e3o regular quanto o caf\u00e9 da manh\u00e3. 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