{"id":4888,"date":"2013-01-31T09:07:58","date_gmt":"2013-01-31T11:07:58","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=4888"},"modified":"2022-09-04T21:16:22","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:22","slug":"antropologa-disseca-caso-de-racismo-na-bmw","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumjustica.com.br\/en\/antropologa-disseca-caso-de-racismo-na-bmw\/","title":{"rendered":"ANTROP\u00d3LOGA DISSECA CASO DE RACISMO NA BMW"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/images-2-03-20326d7e335cbee644dc2d2ba281448e6434d516.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/images-2-03-20326d7e335cbee644dc2d2ba281448e6434d516.jpg\" alt=\"\" title=\"images-2-03-20326d7e335cbee644dc2d2ba281448e6434d516\" width=\"1000\" height=\"357\" class=\"aligncenter size-full wp-image-4889\" srcset=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/images-2-03-20326d7e335cbee644dc2d2ba281448e6434d516.jpg 1000w, https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/images-2-03-20326d7e335cbee644dc2d2ba281448e6434d516-300x107.jpg 300w, https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/images-2-03-20326d7e335cbee644dc2d2ba281448e6434d516-768x274.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/a><br \/>\n<strong>Segundo D\u00e9bora Diniz, o mal-entendido na concession\u00e1ria da Barra reflete uma realidade brasileira: crian\u00e7as negras s\u00e3o invis\u00edveis ao universo do consumo; charge do artista M\u00e1ximo compara concession\u00e1ria a um navio negreiro<\/strong><\/p>\n<p><strong>247<\/strong> &#8211; Foi um mal-entendido ou uma crian\u00e7a negra \u00e9 invis\u00edvel ao universo do consumo de luxo no Brasil? Confira, abaixo, a an\u00e1lise da antrop\u00f3loga Debora Diniz, sobre o caso de racismo numa concession\u00e1ria da BMW na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro:<\/p>\n<p><strong>Qual mal-entendido?<\/p>\n<p>O casal, branco, queria comprar uma BMW no Rio; o gerente da loja, expulsar um menino negro de 7 anos. Era o filho deles<\/p>\n<p>Debora Diniz*<br \/>\n<\/strong><br \/>\nEm nenhum momento, ele olhou para o nosso filho.&#8221; Priscilla Celeste Munk \u00e9 m\u00e3e de uma crian\u00e7a negra de sete anos. No cat\u00e1logo racial brasileiro, ela \u00e9 uma mulher branca. Sua branquidade se anuncia pela cor da pele, mas tamb\u00e9m pela classe social. Foi como uma mulher branca, acompanhada de seu marido tamb\u00e9m branco, Ronald Munk, que vivenciou o racismo contra seu filho adotivo em um dos templos do consumo de luxo no pa\u00eds &#8211; uma concession\u00e1ria de carros BMW no Rio de Janeiro. A cena foi prosaica: a fam\u00edlia foi \u00e0 concession\u00e1ria e o filho se entreteve com uma televis\u00e3o. O gerente os atendeu como um casal desacompanhado. Quando a crian\u00e7a se aproximou, a cor de sua pele resumiu a impertin\u00eancia de sua presen\u00e7a em um lugar onde somente brancos e ricos seriam bem-vindos. Sem se dirigir ao casal, o gerente ordenou que a crian\u00e7a sa\u00edsse da loja: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o pode ficar aqui dentro. Aqui n\u00e3o \u00e9 lugar para voc\u00ea. Saia da loja. Eles pedem dinheiro e incomodam os clientes&#8221;.<\/p>\n<p>Imagino que o mon\u00f3logo do gerente com a crian\u00e7a sem nome nem rosto, mas rejeitada pela cor, tenha sido adequadamente reproduzido pela m\u00e3e. A combina\u00e7\u00e3o entre um &#8220;voc\u00ea&#8221; que olha, mas ignora a crian\u00e7a, e um abstrato &#8220;eles&#8221;, que n\u00e3o olha, mas registra a desigualdade, \u00e9 poderosa para resumir a racializa\u00e7\u00e3o de classe da sociedade brasileira. Em poucas palavras, o gerente oscilou entre dois universos, ambos movidos pela mesma inquieta\u00e7\u00e3o moral: como proteger os ricos dos pobres, os brancos dos negros. O gerente n\u00e3o cogitou estar diante de uma fam\u00edlia multirracial, mas de clientes brancos e de um menino negro pedinte que perturbaria a tranquilidade do consumo.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, n\u00e3o haveria nada de novo para a realidade da desigualdade social que organiza o espa\u00e7o do consumo &#8211; engana-se quem pensa que os shoppings centers s\u00e3o locais de livre tr\u00e2nsito: as regras sobre como se vestir e se portar n\u00e3o permitem que todos igualmente ali transitem. A impertin\u00eancia do caso \u00e9, exatamente, estremecer essa ordem silenciosa da desigualdade racial e de classe da sociedade brasileira. Por isso, com a devida sensibilidade do capitalismo global, a concession\u00e1ria da BMW optou por descrever o caso como um &#8220;mal-entendido&#8221;.<\/p>\n<p>&#8220;Preconceito racial n\u00e3o \u00e9 mal-entendido&#8221;, disse a fam\u00edlia em uma campanha aberta sobre o caso, por\u00e9m com cautela sobre a identidade do filho que se v\u00ea resumido \u00e0 cor. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que esse \u00e9 um caso de discrimina\u00e7\u00e3o racial &#8211; a cor da pele importa para o reconhecimento do outro como um semelhante. \u00c9 isso que chamamos racismo: descri\u00e7\u00e3o do outro como um dessemelhante e abjeto pela cor de seu corpo. A crian\u00e7a de 7 anos, antes mesmo de entender o sentido pol\u00edtico do racismo na cena vivida, foi alvo de uma rejei\u00e7\u00e3o que resume sua exist\u00eancia. Assim ser\u00e1 sua vida. O consolo familiar \u00e9 que o garoto redescreveu para si que &#8220;crian\u00e7as n\u00e3o eram bem-vindas \u00e0 loja&#8221; e n\u00e3o se personalizou na rejei\u00e7\u00e3o pelo corpo. A ingenuidade infantil em breve ser\u00e1 vencida pela observa\u00e7\u00e3o cotidiana de pr\u00e1ticas racistas. Com a perda da ingenuidade, a crian\u00e7a sem nome e com somente cor encontrar\u00e1 outro grupo para traduzir sua experi\u00eancia de sentir-se abjeta &#8211; n\u00e3o ser\u00e1 mais porque \u00e9 uma crian\u00e7a em um ambiente de adultos, mas um adolescente, um homem ou um velho negro em um mundo cuja ordem do consumo e da lei \u00e9, ainda, branca.<\/p>\n<p>Por isso, desejo explorar o argumento do &#8220;mal-entendido&#8221; para al\u00e9m de uma estrat\u00e9gia infeliz de marketing. De fato, h\u00e1 um mal-entendido \u00e9tico que costurou o roteiro desse desencontro racial. Para ser reconhecido como um futuro adulto rico e potencial amigo da concession\u00e1ria para a compra de carros de luxo, o garoto de 7 anos precisaria habitar um corpo intelig\u00edvel para a casta dos ricos. Sua cor o torna um sujeito inimagin\u00e1vel. Para ser reconhecido, \u00e9 preciso antes ser intelig\u00edvel \u00e0 ordem dominante.<\/p>\n<p>Crian\u00e7as negras s\u00e3o ainda invis\u00edveis ao universo do consumo, o que pode parecer \u00f3bvio dada a sobreposi\u00e7\u00e3o da desigualdade de classe \u00e0 desigualdade racial no Pa\u00eds: negros s\u00e3o mais pobres que brancos, um fato que alimenta intermin\u00e1veis controv\u00e9rsias sobre as causas da desigualdade, se seriam elas de renda ou raciais. A verdade \u00e9 que as crian\u00e7as negras n\u00e3o s\u00e3o invis\u00edveis apenas na concession\u00e1ria da BMW, mas em escolas, hospitais ou espa\u00e7os de lazer, isto \u00e9, como futuros cidad\u00e3os \u00e0 espera da prote\u00e7\u00e3o de uma sociedade que se define como livre do racismo.<\/p>\n<p>Como em um experimento sociol\u00f3gico, o caso da fam\u00edlia multirracial mostrou que a renda n\u00e3o \u00e9 capaz de silenciar a rejei\u00e7\u00e3o racial: a crian\u00e7a se converteu em um ser abstrato, parte de uma massa de pedintes que incomodam os clientes ricos. Ao contr\u00e1rio do que imagina a loja da BMW, o mal-entendido n\u00e3o se resumiu ao di\u00e1logo entre o gerente e a fam\u00edlia, mas entre quem imaginamos que somos como uma democracia racial e o que efetivamente fazemos com nossa diversidade racial.<\/p>\n<p><strong>* Debora Diniz \u00e9 antrop\u00f3loga, professora da Universidade de Bras\u00edlia e pesquisadora da ANIS &#8211; Instituto de Bio\u00e9tica, Direitos humanos e G\u00eanero<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/\">http:\/\/www.brasil247.com\/pt\/247\/rio247\/91832\/Antrop%C3%B3loga-disseca-caso-de-racismo-na-BMW.htm<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segundo D\u00e9bora Diniz, o mal-entendido na concession\u00e1ria da Barra reflete uma realidade brasileira: crian\u00e7as negras s\u00e3o invis\u00edveis ao universo do consumo; charge do artista M\u00e1ximo compara concession\u00e1ria a um navio negreiro 247 &#8211; Foi um mal-entendido ou uma crian\u00e7a negra \u00e9 invis\u00edvel ao universo do consumo de luxo no Brasil? 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