{"id":7793,"date":"2014-01-13T17:12:01","date_gmt":"2014-01-13T19:12:01","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=7793"},"modified":"2022-09-04T21:15:51","modified_gmt":"2022-09-05T00:15:51","slug":"rolezinhos-o-que-estes-jovens-estao-roubando-da-classe-media-brasileira-por-eliane-brum","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumjustica.com.br\/en\/rolezinhos-o-que-estes-jovens-estao-roubando-da-classe-media-brasileira-por-eliane-brum\/","title":{"rendered":"Rolezinhos: O que estes jovens est\u00e3o \u201croubando\u201d da classe m\u00e9dia brasileira &#8211; por Eliane Brum"},"content":{"rendered":"<div id=\"main\">\n<dl>\n<dd>\n<div id=\"main\" style=\"text-align: left;\">\n<dl>\n<dd>Categoria:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/em-debate\/colunistas\">Colunistas<\/a><\/dd>\n<dd>Publicado em Quarta, 25 Dezembro 2013<\/dd>\n<\/dl>\n<div><a><\/a><a><\/a><a><\/a><strong>Os novos \u201cv\u00e2ndalos\u201d do Brasil<\/strong><\/div>\n<p><strong>O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de S\u00e3o Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta \u00e9 a de sempre: criminaliza\u00e7\u00e3o. Mas o que estes jovens est\u00e3o, de fato, \u201croubando\u201d da classe m\u00e9dia brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/images\/stories\/2013\/dezembro\/eliane_brum.jpg\" alt=\"eliane brum\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O Natal de 2013 ficar\u00e1 marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe m\u00e9dia faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, \u00e0s vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de \u201crolezinho\u201d, em shopping pr\u00f3ximos de suas comunidades, para \u201czoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras\u201d ou \u201ctumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos\u201d. No s\u00e1bado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refr\u00f5es de funk da ostenta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o roubaram, n\u00e3o destru\u00edram, n\u00e3o portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados at\u00e9 a delegacia, sem que nada justificasse a deten\u00e7\u00e3o. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base m\u00f3vel e quatro cambur\u00f5es para a revista, outras quatro unidades da Pol\u00edcia Militar, uma do GOE (Grupo de Opera\u00e7\u00f5es Especiais) e cinco carros de seguran\u00e7a particular para montar guarda. V\u00e1rios jovens foram \u201cconvidados\u201d a se retirar do pr\u00e9dio, por exibirem uma apar\u00eancia de funkeiros, como dois irm\u00e3os que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No s\u00e1bado, 21, a pol\u00edcia, chamada pela administra\u00e7\u00e3o do Shopping Campo Limpo, n\u00e3o constatou nenhum \u201ctumulto\u201d, mas viaturas da For\u00e7a T\u00e1tica e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de g\u00e1s.<\/p>\n<h2><strong>Se n\u00e3o h\u00e1 crime, por que a juventude pobre e negra das periferias da Grande S\u00e3o Paulo est\u00e1 sendo criminalizada?<\/strong><\/h2>\n<p>Primeiro, por causa do passo para dentro. Os shoppings foram constru\u00eddos para mant\u00ea-los do lado de fora e, de repente, eles ousaram superar a margem e entrar. E reivindicando algo transgressor para jovens negros e pobres, no imagin\u00e1rio nacional: divertir-se fora dos limites do gueto. E desejar objetos de consumo. N\u00e3o geladeiras e TVs de tela plana, s\u00edmbolos da chamada classe C ou \u201cnova classe m\u00e9dia\u201d, parcela da popula\u00e7\u00e3o que ascendeu com a amplia\u00e7\u00e3o de renda no governo Lula, mas marcas de luxo, as grandes grifes internacionais, aqueles que se pretendem exclusivas para uma elite, em geral branca.<\/p>\n<p>Antes, em 7 de dezembro, cerca de 6 mil jovens haviam ocupado o estacionamento do Shopping Metr\u00f4 Itaquera, e tamb\u00e9m foram reprimidos. V\u00e1rios rolezinhos foram marcados pelas redes sociais em diferentes shoppings da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo at\u00e9 o final de janeiro, mas, com medo da repress\u00e3o, muitos t\u00eam sido cancelados. Seus organizadores, jovens que trabalham em servi\u00e7os como o de office-boy e ajudante geral, temem perder o emprego ao serem detidos pela pol\u00edcia por estarem onde supostamente n\u00e3o deveriam estar \u2013 numa lei n\u00e3o escrita, mas sempre cumprida no Brasil. Seguran\u00e7as dos shoppings foram orientados a monitorar qualquer jovem \u201csuspeito\u201d que esteja diante de uma vitrine, mesmo que sozinho, desejando \u00f3culos da Oakley ou t\u00eanis Mizuno, dois dos \u00edcones dos funkeiros da ostenta\u00e7\u00e3o. \u00c0s v\u00e9speras do Natal, o Brasil mostra a face deformada do seu racismo. E precisa encar\u00e1-la, porque racismo, sim, \u00e9 crime.<\/p>\n<p>\u201cEita porra, que cheiro de maconha\u201d foi o refr\u00e3o cantado pelos jovens ao entrarem no Shopping Internacional de Guarulhos. O funk \u00e9 de MC Daleste, que afirma no nome art\u00edstico a regi\u00e3o onde nasceu e se criou, a zona leste, a mais pobre de S\u00e3o Paulo, aquela que todo o ver\u00e3o naufraga com as chuvas, por obras que os sucessivos governos sempre adiam, esmagando sonhos, soterrando casas, matando adultos e crian\u00e7as. Daleste morreu assassinado em julho com um tiro no peito durante um show em Campinas \u2013 e assassinato \u00e9 a primeira causa de morte dos jovens negros e pobres no Brasil, como os que ocuparam o Shopping Internacional de Guarulhos.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia reprimiu, os lojistas fecharam as lojas, a clientela correu. Uma das frequentadores do shopping disse a frase-s\u00edmbolo \u00e0 rep\u00f3rter Laura Capriglione, na Folha de S. Paulo: \u201cTem de proibir este tipo de maloqueiro de entrar num lugar como este\u201d. Nos dias que se seguiram, em diferentes sites de imprensa, leitores assim definiram os \u201crolezeiros\u201d (veja entrevista abaixo): \u201cmaloqueiros\u201d, \u201cbandidos\u201d, \u201cprostitutas\u201d e \u201cnegros\u201d. Negros emerge aqui como palavra de ofensa.<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2><strong>As novelas j\u00e1 vendiam uma vida de luxo h\u00e1 muito tempo, s\u00f3 que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de riqueza. Nos videoclipes de funk ostenta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os pobres que aparecem neste mundo.\u201d<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>O funk da ostenta\u00e7\u00e3o, surgido na Baixada Santista e Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo nos \u00faltimos anos, evoca o consumo, o luxo, o dinheiro e o prazer que tudo isso d\u00e1. Em seus clipes, os MCs aparecem com correntes e an\u00e9is de ouro, vestidos com roupas de grife, em carros caros, cercado por mulheres com muita bunda e pouca roupa. (<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=5V3ZK6jAuNI\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Para conhecer o funk da ostenta\u00e7\u00e3o, assista ao document\u00e1rio<\/a>aqui). Diferentemente do n\u00facleo duro do hip hop paulista dos ano 80 e 90, que negava o sistema, e tamb\u00e9m do movimento de literatura perif\u00e9rica e marginal que, no in\u00edcio dos anos 2000, defendia que, se \u00e9 para consumir, que se compre as marcas produzidas pela periferia, para a periferia, o funk da ostenta\u00e7\u00e3o coloca os jovens, ainda que para a maioria s\u00f3 pelo imagin\u00e1rio, em cen\u00e1rios at\u00e9 ent\u00e3o reservados para a juventude branca das classes m\u00e9dia e alta. Esta, talvez, seja a sua transgress\u00e3o. Em seus clipes, os MCs t\u00eam vida de rico, com todos os signos dos ricos. Gra\u00e7as ao sucesso de seu funk nas comunidades, muitos MCs enriqueceram de fato e tiveram acesso ao mundo que celebravam.<\/p>\n<p>Esta exalta\u00e7\u00e3o do luxo e do consumo, interpretada como ades\u00e3o ao sistema, tornou o funk da ostenta\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel para uma parcela dos intelectuais brasileiros e mesmo para parte das lideran\u00e7as culturais das periferias de S\u00e3o Paulo. Agora, os rolezinhos \u2013 e a repress\u00e3o que se seguiu a eles \u2013 deram a esta vertente do funk uma marca de insurg\u00eancia, celebrada nos \u00faltimos dias por vozes da esquerda. Ao ocupar os shoppings, a juventude pobre e negra das periferias n\u00e3o estava apenas se apropriando dos valores simb\u00f3licos, como j\u00e1 fazia pelas letras do funk da ostenta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m dos espa\u00e7os f\u00edsicos, o que marca uma diferen\u00e7a. E, para alguns setores da sociedade, adiciona um conte\u00fado perigoso \u00e0quele que j\u00e1 foi chamado de \u201cfunk do bem\u201d.<\/p>\n<p>A resposta violenta da administra\u00e7\u00e3o dos shoppings, das autoridades p\u00fablicas, da clientela e de parte da m\u00eddia demonstra que esses atores decodificaram a entrada da juventude das periferias nos shoppings como uma viol\u00eancia. Mas a viol\u00eancia era justamente o fato de n\u00e3o estarem l\u00e1 para roubar, o \u00fanico lugar em que se acostumaram a enxergar jovens negros e pobres. Ent\u00e3o, como encaix\u00e1-los, em que lugar coloc\u00e1-los? Preferiram concluir que havia a inten\u00e7\u00e3o de furtar e destruir, o que era mais f\u00e1cil de aceitar do que admitir que apenas queriam se divertir nos mesmos lugares da classe m\u00e9dia, desejando os mesmo objetos de consumo que ela. Levaram uma parte dos rolezeiros para a delegacia. Ainda que tivessem de solt\u00e1-los logo depois, porque nada de fato havia para mant\u00ea-los ali, o ato j\u00e1 estigmatizou-os e assinalar\u00e1 suas vidas, como historicamente se fez com os negros e pobres no Brasil.<\/p>\n<p>Jefferson Lu\u00eds, 20 anos, organizador do rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos, foi detido, \u00e9 alvo de inqu\u00e9rito policial, sua m\u00e3e chorou e ele acabou cancelando outro rolezinho j\u00e1 marcado por medo de ser ainda mais massacrado. Ajudante geral de uma empresa, economizou um m\u00eas de sal\u00e1rio para comprar a corrente dourada que ostenta no pesco\u00e7o. Jefferson disse ao jornal O Globo: \u201cN\u00e3o seria um protesto, seria uma resposta \u00e0 opress\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para ficar em casa trancado\u201d.<\/p>\n<p>Por esta subvers\u00e3o, ele n\u00e3o ser\u00e1 perdoado. Os jovens negros e pobres das periferias de S\u00e3o Paulo, em vez de se contentarem em trabalhar na constru\u00e7\u00e3o civil e em servi\u00e7os subalternos das empresas de segunda a sexta, e ficar trancados em casas sem saneamento no fim de semana, querem tamb\u00e9m se divertir. Zoar, como dizem. A classe m\u00e9dia at\u00e9 aceita que queiram p\u00e3o, que queiram geladeira, sente-se mais incomodada quando lotam os aeroportos, mas se divertir \u2013 e nos shoppings? Mais uma frase de Jefferson Luiz: \u201cSe eu tivesse um quarto s\u00f3 pra mim hoje j\u00e1 seria uma ostenta\u00e7\u00e3o\u201d. Ele divide um c\u00f4modo na periferia de Guarulhos com oito pessoas.<\/p>\n<p>Neste Natal, os funkeiros da ostenta\u00e7\u00e3o parecem ter virado os novos \u201cv\u00e2ndalos\u201d, como s\u00e3o chamados todos os manifestantes que, nos protestos, n\u00e3o se comportam dentro da etiqueta estabelecida pelas autoridades institu\u00eddas e por parte da m\u00eddia. Nas primeiras not\u00edcias da imprensa, o rolezinho do Shopping Internacional de Guarulhos foi tachado de \u201carrast\u00e3o\u201d. Mas n\u00e3o havia arrast\u00e3o nenhum. O antrop\u00f3logo Alexandre Barbosa Pereira faz uma provoca\u00e7\u00e3o precisa: \u201cSe fosse um grupo numeroso de jovens brancos de classe m\u00e9dia, como aconteceu v\u00e1rias vezes, seria interpretado como um\u00a0<em>flash mob<\/em>?\u201d.<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2><strong>A ideia da imagina\u00e7\u00e3o como uma for\u00e7a criativa apresenta-se fortemente no funk ostenta\u00e7\u00e3o.\u201d<\/strong><\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Por que os administradores dos shoppings, pol\u00edcia, parte da m\u00eddia e clientela s\u00f3 conseguem enquadrar um grupo de jovens negros e pobres dentro de um shopping como \u201carrast\u00e3o\u201d? H\u00e1 v\u00e1rias respostas poss\u00edveis. Pereira prop\u00f5e uma bastante aguda: \u201cSer\u00e1 que a classe m\u00e9dia entende que os jovens est\u00e3o \u2018roubando\u2019 o direito exclusivo de eles consumirem?\u201d. Seria este o \u201croubo\u201d imperdo\u00e1vel, que colocou as for\u00e7as de repress\u00e3o na porta dos shoppings, para impedir a entrada de garotos desarmados que queriam zoar, dar uns beijos e cobi\u00e7ar seus objetos de desejo nas vitrines?<\/p>\n<p>Para nos ajudar a pensar sobre os significados do rolezinho e do funk da ostenta\u00e7\u00e3o, entrevisto Alexandre Barbosa Pereira nesta coluna. Professor da Universidade Federal de S\u00e3o Paulo (Unifesp), ele dedica-se a pesquisar as manifesta\u00e7\u00f5es culturais das periferias paulistas. Em seu mestrado, percorreu o mundo da picha\u00e7\u00e3o. No doutorado, mergulhou nas escolas p\u00fablicas para compreender o que \u00e9 \u201czoar\u201d. Desde 2012, pesquisa o funk da ostenta\u00e7\u00e3o. Mesmo que os rolezinhos, pela for\u00e7a da repress\u00e3o, se encerrem neste Natal, h\u00e1 muito que precisamos compreender sobre o que dizem seus protagonistas \u2013 e sobre o que a rea\u00e7\u00e3o violenta contra eles diz da sociedade brasileira<\/p>\n<h2>&#8211;\u00a0O rolezinho aparece ligado ao funk da ostenta\u00e7\u00e3o. Em que medida h\u00e1, de fato, essa liga\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n<p>Alexandre Barbosa Pereira \u2013\u00a0O funk ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma releitura paulista do funk carioca, feita a partir da Baixada Santista e da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, na qual as letras passam a ter a seguinte tem\u00e1tica: dinheiro, grifes, carros, bebidas e mulheres. N\u00e3o se fala mais diretamente de crime, drogas ou sexo. Os funkeiros dessa vertente come\u00e7aram a produzir videoclipes inspirados na est\u00e9tica dos videocliples do gangsta rap estadunidense. Mas o mais curioso desse movimento \u00e9 a virada que os jovens fazem ao mudar a pauta que, at\u00e9 ent\u00e3o, era principalmente a criminalidade para o consumo. As m\u00fasicas deixam de falar de crime para falar de produtos que eles querem consumir. Assim, ao inv\u00e9s de cantarem: \u201cRouba moto, rouba carro, bandido n\u00e3o anda \u00e0 p\u00e9\u201d (Bonde Sinistro), os funkeiros da vertente ostenta\u00e7\u00e3o cantam: \u201cVida \u00e9 ter um Hyundai e um hornet, dez mil para gastar, rolex, juliet. Melhores kits, v\u00e1rios investimentos. Ah como \u00e9 bom ser o top do momento\u201d (MC Danado). Deste modo, os MCs come\u00e7aram a ter mais espa\u00e7os para cantar em casas noturnas e passaram a produzir videoclipes cada vez mais elaborados, com mais de 20 milh\u00f5es de acessos no YouTube, o que levou a um sucesso \u00e0s margens da m\u00eddia tradicional. Alguns MCs chegaram a alcan\u00e7ar grande repercuss\u00e3o entre um segmento do p\u00fablico jovem, sem nunca ter aparecido na televis\u00e3o. Vi meninas chorando por MCs em bailes, mesmo antes de o funk ostenta\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ar o destaque que conseguiu na grande m\u00eddia. Surgiram empresas especializadas na produ\u00e7\u00e3o de clipes no estilo ostenta\u00e7\u00e3o, como a Kondzilla e a Funk TV, claramente inspirados no gangsta rap, em que os jovens aparecem em carr\u00f5es e motos, exibindo-se com roupas, dinheiro e mulheres. Uma reflex\u00e3o interessante a se fazer \u00e9 como a m\u00eddia tradicional, que antes execrava o chamado funk proibid\u00e3o, que falava de crime, drogas e sexo abertamente, agora come\u00e7a a elogiar o funk ostenta\u00e7\u00e3o, denominando-o at\u00e9 como \u201cfunk do bem\u201d e ressaltando a trajet\u00f3ria econ\u00f4mica e social ascendente dos MCs.<\/p>\n<p>Pergunta.\u00a0Fazendo um par\u00eantese aqui, antes de chegar ao rolezinho, qual \u00e9 o caminho para um jovem pobre ter acesso ao consumo de luxo, segundo o olhar do funk da ostenta\u00e7\u00e3o? Esta virada que voc\u00ea mencionou&#8230;<\/p>\n<p>Resposta.\u00a0Primeiro que esse bem de luxo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o de luxo assim, afinal uma garrafa de u\u00edsque a 60 ou 80 Reais n\u00e3o \u00e9 nenhum absurdo. \u00c9 sempre poss\u00edvel comprar uma r\u00e9plica daqueles \u00f3culos escuros que custam mais de mil reais. Nas casas noturnas de funk que observei, este era o pre\u00e7o. Pensemos num grupo de pelo menos quatro amigos dividindo o valor da compra. N\u00e3o sai t\u00e3o caro brincar de ostentar. Agora, tem os carros. Estes sim est\u00e3o fora do alcance da maioria desses jovens. Mas a\u00ed h\u00e1 uma explica\u00e7\u00e3o interessante, que Montanha, um produtor e diretor de videoclipes da Funk TV, em Cidade Tiradentes, sabiamente me deu. Ele me disse que as novelas j\u00e1 vendiam uma vida de luxo h\u00e1 muito tempo, s\u00f3 que nelas os ricos eram os que pertenciam ao mundo de luxo. Nos videoclipes de funk ostenta\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os pobres que aparecem como um mundo de \u201criqueza\u201d ou de \u201cluxo\u201d, com carros, mans\u00f5es, roupas de marcas mais caras. Os jovens agora poderiam, segundo afirmou Montanha, ver-se como parte de um mundo de prest\u00edgio, da\u00ed a grande identifica\u00e7\u00e3o. O crime pode ser um caminho para acessar esse mundo de luxo ou o que esses jovens entendem por um mundo de luxo, mas n\u00e3o \u00e9 \u00fanico. Esta \u00e9 a li\u00e7\u00e3o que muitos MCs de funk t\u00eam tentando passar em suas falas na grande m\u00eddia. Eles de certa forma mostram um outro caminho, que, ali\u00e1s, sempre esteve presente para esses jovens da periferia: tornar-se famoso pela m\u00fasica ou pelo futebol. Ali\u00e1s, esses s\u00e3o caminhos que aparecem como os mais poss\u00edveis para os jovens negros e pobres das periferias do pa\u00eds imaginarem um futuro de sucesso. Num mundo em que h\u00e1 uma forte divis\u00e3o entre trabalho intelectual e manual, com a extrema valoriza\u00e7\u00e3o do primeiro, o uso do corpo em formas l\u00fadicas como meio de ganhar dinheiro mostra-se como op\u00e7\u00e3o para uma transforma\u00e7\u00e3o da vida. \u201cCrime, futebol, m\u00fasica, caralho, eu tamb\u00e9m n\u00e3o consegui fugir disso a\u00ed\u201d, esse \u00e9 o Negro Drama cantado pelos Racionais MC\u2019s. Os MCs de funk ostenta\u00e7\u00e3o est\u00e3o tentando dizer que \u00e9 poss\u00edvel construir uma vida de sucesso pela m\u00fasica. E o que era fic\u00e7\u00e3o, os videoclipes com carros importados emprestados ou alugados, com dinheiro cenogr\u00e1fico jogado para o ar, come\u00e7a a tornar-se realidade. Muitos deles come\u00e7am a ganhar uma quantidade razo\u00e1vel de dinheiro com os shows. Acho que a ideia da imagina\u00e7\u00e3o como uma for\u00e7a criativa apresenta-se fortemente no funk ostenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2>Ser\u00e1 que a classe m\u00e9dia entende que os jovens est\u00e3o \u2018roubando\u2019 o direito exclusivo de eles consumirem? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres h\u00e1 muito tempo.\u201d<\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Por outro lado, \u00e9 preciso destacar que masculinidades pautadas pelo desejo de possuir um autom\u00f3vel ou uma motocicleta n\u00e3o foram constru\u00eddas pelo funk ostenta\u00e7\u00e3o. J\u00e1 existia h\u00e1 um tempo. Para os meninos da periferia, possuir um bom carro, bonito e potente, \u00e9 uma das metas principais de vida. A posse do carro \u00e9, no imagin\u00e1rio desses jovens, mas tamb\u00e9m da popula\u00e7\u00e3o em geral, um indicativo de sucesso econ\u00f4mico e social, garantindo, consequentemente, sucesso com as mulheres.<\/p>\n<p>Neste caldo cultural, o consumo \u00e9 cada vez mais exaltado como espa\u00e7o de afirma\u00e7\u00e3o e de reconhecimento para os jovens. \u00c9, inclusive, bastante complexa a forma como se d\u00e1 a rela\u00e7\u00e3o entre criminalidade e consumo no funk. Na virada que produziram, parece que h\u00e1 o recado de que essas duas a\u00e7\u00f5es sociais podem constituir dois lados de uma mesma moeda. Eles n\u00e3o deixam de falar do crime. Acabam citando-o indiretamente, como nas m\u00fasicas do MC Rodofilho, nas quais ele celebra: \u201cAi meu deus, como \u00e9 bom ser vida loka!\u201d. O importante \u00e9 entender como o crime e o consumo s\u00e3o pautas constantes nas rela\u00e7\u00f5es de sociabilidade dos jovens da periferia. Os mais pobres tamb\u00e9m querem que ipads, iphones e autom\u00f3veis potentes fa\u00e7am parte de seu mundo social. Ainda preciso observar e refletir mais sobre isso, mas acho que tanto no caso do crime, como no do consumo temos que atentar mais para o modo como se d\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas e coisas. Fico pensando que a busca de realiza\u00e7\u00e3o apenas pelo consumo envolve sentimentos e posturas extremas de um ego\u00edsmo hedonista e de um profundo desprezo pelos outros humanos. As mercadorias, ou as coisas almejadas, de certa forma t\u00eam conformado as subjetividades contempor\u00e2neas. E nessas novas subjetividades, pautadas pelo instant\u00e2neo e o inst\u00e1vel, parece n\u00e3o haver muito espa\u00e7o para a solidariedade. H\u00e1 uma nova tend\u00eancia na discuss\u00e3o antropol\u00f3gica afirmando que n\u00e3o podemos entender as coisas apenas como representa\u00e7\u00e3o ou resultado do social. Precisamos pensar tamb\u00e9m em como as coisas fazem as pessoas e mesmo o social, como as coisas, ou as mercadorias mais desejadas hoje, motivam tanto um consumismo desenfreado, irracional e ego\u00edsta, quanto o ingresso de jovens na criminalidade. Sempre fico espantado quando vejo as imagens, em outros pa\u00edses, das pessoas correndo desesperadas para comprar um novo lan\u00e7amento de smartphone, videogame ou tablet&#8230; Mas n\u00e3o s\u00f3 isso, tais coisas tamb\u00e9m motivam e determinam formas de estar, pensar, relacionar-se e sentir no mundo contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p>Penso muito nisso quando parte da classe m\u00e9dia critica o consumo desses jovens, dizendo que apenas eles \u2013 da classe m\u00e9dia que, supostamente, pagaria os impostos \u2013 t\u00eam direito a consumir, ou se relacionar com certos produtos. Ser\u00e1 que, desse modo, a classe m\u00e9dia entende que os jovens est\u00e3o roubando o direito exclusivo de eles consumirem ou de se relacionarem com esses objetos de prest\u00edgio? Direito que, por sua vez, vinha sendo roubado desses jovens pobres h\u00e1 muito tempo?<\/p>\n<p>Essa cr\u00edtica pode vir inclusive de certa classe m\u00e9dia mais intelectualizada e mesmo com ideias pol\u00edticas progressistas, mas que acha que sabe o que \u00e9 melhor para os pobres. A\u00ed fazem a cr\u00edtica, a partir dos seus ipads e iphones, ao que entendem como um consumo irracional dos mais pobres, que deveriam poupar ao inv\u00e9s de gastar com produtos que n\u00e3o seriam para o n\u00edvel econ\u00f4mico deles. Enfim, tem a\u00ed um jogo de perde e ganha e tamb\u00e9m de busca de satisfa\u00e7\u00f5es individuais que envolve o roubo do direito de alguns ao consumo, que \u00e9 preciso aprofundar para entendermos melhor essas din\u00e2micas contempor\u00e2neas. Todos t\u00eam o direito a consumir o que quiserem hoje? E seria vi\u00e1vel, hoje, todos consumirem em um alto padr\u00e3o? Que implica\u00e7\u00f5es ambientais ter\u00edamos? E se n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel ou vi\u00e1vel que todos consumam em tamanha intensidade, por que incentivamos tal consumismo? Com isso, o que quero dizer \u00e9 que n\u00e3o se pode pensar a rela\u00e7\u00e3o entre crime e consumo apenas entre os pobres, mas creio que precisamos tamb\u00e9m olhar para as classes m\u00e9dias e altas e para os crimes que, historicamente, t\u00eam sido cometidos contra os mais pobres e o meio ambiente para proteger o consumo dos ricos.<\/p>\n<p>P.\u00a0\u00c9 neste ponto que os rolezinhos aparecem e criam uma tens\u00e3o das mais reveladoras neste Natal?<\/p>\n<p>R.\u00a0Os rolezinhos nos shoppings est\u00e3o ligados diretamente a esse contexto. N\u00e3o sei dizer como surgiram efetivamente, mas me parece que despontaram por essas novas associa\u00e7\u00f5es que as redes sociais permitem fazer, de forma que uma brincadeira possa virar algo s\u00e9rio. De repente, uma convocat\u00f3ria feita na internet pode levar centenas de jovens a se encontrarem num shopping, local onde podem ter acesso a esses bens cantados nas m\u00fasicas, ainda que apenas por acesso visual. Agora, o que \u00e9 importante ressaltar \u00e9 que n\u00e3o foram os rolezinhos nem o funk ostenta\u00e7\u00e3o que criaram essa rela\u00e7\u00e3o de fascina\u00e7\u00e3o com consumo. Esta j\u00e1 existia h\u00e1 muito tempo. Os Racionais, h\u00e1 mais de dez anos, j\u00e1 cantavam sobre isso, com afirma\u00e7\u00f5es como: \u201cVoc\u00ea disse que era bom e a favela ouviu, l\u00e1 tamb\u00e9m tem u\u00edsque, red bull, t\u00eanis nike e fuzil\u201d ou \u201cFartura alegra o sofredor\u201d<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2>\u00c9 importante perceber que os shoppings onde os rolezinhos ocorreram est\u00e3o em regi\u00f5es mais perif\u00e9ricas. Eles n\u00e3o t\u00eam ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade.\u201d<\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>P.\u00a0Algumas an\u00e1lises relacionam os rolezinhos a uma a\u00e7\u00e3o afirmativa da juventude negra e pobre, a uma den\u00fancia da opress\u00e3o e a uma reivindica\u00e7\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o, neste caso no mundo do consumo. Como voc\u00ea analisaria este fen\u00f4meno t\u00e3o novo?<\/p>\n<p>R.\u00a0N\u00e3o me arriscaria a dizer que h\u00e1 um movimento pol\u00edtico muito claro. Pode indiretamente constituir-se como uma a\u00e7\u00e3o afirmativa da juventude negra e pobre. Talvez a tens\u00e3o que se criou com a criminaliza\u00e7\u00e3o desses jovens, durante os rolezinhos, possa levar a algum tipo de reflex\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica maior, mas \u00e9 dif\u00edcil prever. Em um livro intitulado\u00a0<em>Cidadania Insurgente<\/em>, (o antrop\u00f3logo americano) James Holston analisa o surgimento das periferias urbanas no Brasil, particularmente em S\u00e3o Paulo, apontando a discrimina\u00e7\u00e3o contra certas esp\u00e9cies de cidad\u00e3os no Brasil. Esse autor mostra como, historicamente, as formula\u00e7\u00f5es de cidadania elaboradas pelos mais pobres se deram a partir de sua ocupa\u00e7\u00e3o dos bairros nas periferias das grandes cidades. No\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas pr\u00f3prias de cidadania que se produziram, ao mesmo tempo, por meio das experi\u00eancias de tornar-se propriet\u00e1rio, de participar de movimentos sociais por melhorias dos bairros e de ingressar no mercado consumidor. Primeiro se ocupou os bairros, mesmo sem estrutura m\u00ednima. Depois, ocorreram as reivindica\u00e7\u00f5es pela legaliza\u00e7\u00e3o dos terrenos ocupados. E, enfim, vieram as lutas pela chegada da energia el\u00e9trica, saneamento b\u00e1sico e asfalto. Acho sempre muito interessante, em conversas com lideran\u00e7as antigas dos bairros perif\u00e9ricos de S\u00e3o Paulo, observar que elas indicam a chegada do asfalto como o grande marco de transforma\u00e7\u00e3o do bairro e a integra\u00e7\u00e3o deste ao espa\u00e7o urbano.<\/p>\n<p>Encaro, portanto, a\u00e7\u00f5es como estas, dos rolezinhos, do ponto de vista dessa \u201ccidadania insurgente\u201d, referindo-se a associa\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os que reivindicam um espa\u00e7o para si e, assim, se contrap\u00f5em ao grande discurso hegem\u00f4nico ou, se n\u00e3o se dissociam do discurso hegem\u00f4nico, ao menos provocam ru\u00eddos nele. Trata-se de uma reivindica\u00e7\u00e3o por cidadania, participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e direitos que, historicamente, foi feita na marra, pelos mais pobres, muitas vezes nas costuras entre o legal e o ilegal, e que come\u00e7ou com a pr\u00f3pria ocupa\u00e7\u00e3o dos bairros na periferia da cidade de S\u00e3o Paulo, como forma de habitar e sobreviver no mundo urbano. Essa cidadania n\u00e3o necessariamente se apresenta como resist\u00eancia, mas pode tamb\u00e9m querer, em muitos casos, associar-se ao hegem\u00f4nico, produzindo disson\u00e2ncias.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o o funk ostenta\u00e7\u00e3o e os rolezinhos se n\u00e3o essa reivindica\u00e7\u00e3o dos jovens mais pobres por maior participa\u00e7\u00e3o na vida social mais ampla pelo consumo? Estas a\u00e7\u00f5es culturais parecem situar-se nessa l\u00f3gica, que n\u00e3o necessariamente se contrap\u00f5e ao hegem\u00f4nico, na medida em que tenta se afirmar pelo consumo, mas provoca um desconforto, um ru\u00eddo extremamente irritante para aqueles que se pautam por um discurso e uma pr\u00e1tica de segrega\u00e7\u00e3o dos que consideram como seus \u201coutros\u201d.<\/p>\n<p>P.\u00a0Como definir este desconforto? O que s\u00e3o os \u201coutros\u201d neste contexto? E que papel estes \u201coutros\u201d desempenham?<\/p>\n<p>R.\u00a0O desconforto em ver pobres ocupando um lugar em que n\u00e3o deveriam estar, como o de consumidores de certos produtos que deveriam ser mais exclusivos. \u00c9 um tipo de espanto, que indaga: \u201cComo eles, que n\u00e3o t\u00eam dinheiro, querem consumir produtos que n\u00e3o s\u00e3o para a posi\u00e7\u00e3o social e econ\u00f4mica deles?\u201d. Estes \u201coutros\u201d s\u00e3o os considerados \u201csubalternos\u201d. Podem ser funkeiros, pobres e pardos da periferia, mas podem ser tamb\u00e9m as empregadas dom\u00e9sticas, os motoboys, os pichadores, entre outros \u201coutros\u201d, que muitas vezes s\u00e3o utilizados como bode expiat\u00f3rio das frustra\u00e7\u00f5es de uma parcela consider\u00e1vel da classe m\u00e9dia.<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2>H\u00e1 uma tend\u00eancia de perceber os jovens pobres a partir de tr\u00eas perspectivas: a do bandido, a da v\u00edtima e a do her\u00f3i.\u201d<\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Os rolezinhos n\u00e3o s\u00e3o protestos contra o shopping ou o consumo, mas afirma\u00e7\u00f5es de: \u201cQueremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo\u201d. Entretanto, por serem jovens pobres de bairros perif\u00e9ricos, negros e pardos em sua maioria, e que ouvem um g\u00eanero musical considerado marginal, eles passam a ser vistos e classificados pela maioria dos segmentos da sociedade como bandidos ou marginais. Vamos pensar que, na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o do shopping, n\u00e3o est\u00e1 prevista a presen\u00e7a desse p\u00fablico, ainda mais em grupo e fazendo barulho. Pergunto-me se fosse em um shopping mais nobre, com jovens brancos de classe m\u00e9dia alta, vestidos como se espera que um jovem deste estrato social se vista, se a repercuss\u00e3o seria a mesma, se a criminaliza\u00e7\u00e3o seria a mesma. Talvez fosse considerado apenas um\u00a0<em>flash mob<\/em>. H\u00e1 uma tend\u00eancia, por parcela consider\u00e1vel da classe m\u00e9dia, da m\u00eddia e do poder p\u00fablico de perceber os jovens pobres a partir de tr\u00eas perspectivas, quase sempre exclusivistas: a do bandido, a da v\u00edtima e a do her\u00f3i.<\/p>\n<p>P.\u00a0Como funcionam estas tr\u00eas perspectivas \u2013 bandido, v\u00edtima e her\u00f3i?<\/p>\n<p>R.\u00a0\u00a0S\u00e3o muito mais formas de enquadrar esses jovens por aqueles que querem tutel\u00e1-los do que categorias assumidas pelos pr\u00f3prios jovens. Por isso, s\u00e3o contextuais. Dependendo da situa\u00e7\u00e3o e dos atores sociais com quem dialogam, o jovem pode ser entendido a partir de uma dessas categorias. O pichador, por exemplo, \u00e9 um agente que pode mobilizar todas essas classifica\u00e7\u00f5es, dependendo do contexto e dos interlocutores: a pol\u00edcia, a secretaria de cultura, os pesquisadores acad\u00eamicos ou a ONG que quer salvar os jovens da periferia da viol\u00eancia. No caso do funk, por exemplo, j\u00e1 h\u00e1 coment\u00e1rios e mesmo textos de pessoas mais politizadas vendo os rolezinhos como uma a\u00e7\u00e3o afirmativa ou extremamente contestat\u00f3ria. Para estes, os protagonistas dos rolezinhos s\u00e3o v\u00edtimas que se tornaram her\u00f3is. Outros, como a pol\u00edcia, a administra\u00e7\u00e3o dos shoppings e a clientela, mas tamb\u00e9m seus vizinhos, que moram l\u00e1 nos bairros pobres da periferia, enxergam neles principalmente vil\u00f5es e mesmo bandidos.<\/p>\n<p>Jovens como estes que est\u00e3o nos rolezinhos n\u00e3o necessariamente aceitam se encaixar nesses r\u00f3tulos, mas, em alguns casos, podem tamb\u00e9m se encaixar em todos eles ao mesmo tempo. N\u00e3o se pode simplificar um fen\u00f4meno como este. Por\u00e9m, se pensarmos esse movimento que surge principalmente com o hip hop, de valorizar a periferia como espa\u00e7o pol\u00edtico e de afirma\u00e7\u00e3o positiva, \u00e9 poss\u00edvel ver, sim, ainda que em menor intensidade, uma certa a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. De dizer: \u201cSomos da quebrada e temos orgulho disso\u201d. Um movimento de revers\u00e3o do estigma em marca positiva.<\/p>\n<p>P.\u00a0Mas h\u00e1, de fato, uma a\u00e7\u00e3o consciente, organizada, com um sentido pol\u00edtico pr\u00e9vio? Ou o sentido est\u00e1 sendo constru\u00eddo a partir dos acontecimentos, o que \u00e9 igualmente leg\u00edtimo?<\/p>\n<p>R.\u00a0Olha, sinceramente, \u00e9 dif\u00edcil dizer se h\u00e1 um sentido pol\u00edtico, direto, consciente e\/ou expl\u00edcito. Talvez por parte de alguns, mas pelo que vi nas redes sociais, n\u00e3o da maioria. Se o movimento persistir ou tomar outras formas, pode ser que tal sentido pol\u00edtico fique mais forte. Por enquanto \u00e9 dif\u00edcil analisar esse ponto. O antrop\u00f3logo (indiano) Arjun Appadurai analisa h\u00e1 algum tempo as mudan\u00e7as que se processam no mundo por causa do avan\u00e7o das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o e de transporte. Segundo este autor, as pessoas cada vez mais se deslocam no mundo atual, e n\u00e3o apenas fisicamente, mas tamb\u00e9m e talvez principalmente pela imagina\u00e7\u00e3o, por causa de meios de comunica\u00e7\u00e3o como a televis\u00e3o e, mais recentemente, pela internet. Hoje \u00e9 poss\u00edvel imaginar-se nos mais diferentes lugares do mundo, mas tamb\u00e9m em diferentes classes sociais. O que s\u00e3o os videoclipes de funk da ostenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o imagens\/imagina\u00e7\u00f5es que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social ou possuir melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas para o consumo?<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2>O que s\u00e3o os videoclipes de funk ostenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o imagens que os jovens produzem sobre o que seria pertencer a outra classe social?\u201d<\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Essa imagina\u00e7\u00e3o, segundo esse autor, pode constituir-se como um projeto pol\u00edtico compartilhado, mas pode tamb\u00e9m ser apenas uma fantasia, como algo individualista e ego\u00edsta, sem grandes potenciais pol\u00edticos. Parece-me que o funk da ostenta\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo e movimentos como o dos rolezinhos nos shoppings t\u00eam intensamente essas duas pot\u00eancias. Dif\u00edcil saber se alguma delas ir\u00e1 prevalecer ou tornar-se hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>P.\u00a0A escolha da m\u00fasica do MC Daleste, assassinado num show em Campinas, para o rolezinho promovido no Shopping Internacional de Guarulhos, pode ter um significado a mais?<\/p>\n<p>R.\u00a0A escolha da m\u00fasica do MC Daleste na entrada dos jovens no shopping de Guarulhos me pareceu bastante significativa, por v\u00e1rios motivos. Principalmente, porque a morte dele no palco, cantando funk, de certa forma construiu um marco para esse funk da ostenta\u00e7\u00e3o. O seu assassinato acabou por dar ainda mais visibilidade a esta vertente do funk paulista. MC Daleste cantava proibid\u00e3o antes e, assim, essa rela\u00e7\u00e3o confusa entre crime e consumo manifesta-se de modo bastante forte no que o MC Daleste representa. H\u00e1 no seu pr\u00f3prio nome art\u00edstico essa afirma\u00e7\u00e3o de um certo orgulho do lugar de onde vem e de ser da periferia, que tanto o funk quanto o hip hop expressam. N\u00e3o \u00e9 por acaso que ele \u00e9 \u201cDa Leste\u201d. Lembremos que Guarulhos tamb\u00e9m est\u00e1 \u00e0 leste da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>P.\u00a0Hoje, uma parte significativa da gera\u00e7\u00e3o que se criou nas periferias com movimentos contestat\u00f3rios como o hip hop e a literatura perif\u00e9rica ou marginal tem, pelo funk da ostenta\u00e7\u00e3o, assumido os valores de consumo das classes m\u00e9dias e alta. Como voc\u00ea analisa este fen\u00f4meno e o insere no contexto hist\u00f3rico atual do Brasil?<\/p>\n<p>R.\u00a0O que um evento como esse parece evidenciar \u00e9, por um lado, esse anseio por consumir e por afirmar-se pelo consumo que esses jovens v\u00eam demonstrando j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, pelas letras dos funks, mas que tamb\u00e9m j\u00e1 \u00e9 visto no hip hop. Apesar das cr\u00edticas de certos segmentos do hip hop, n\u00e3o sei se o funk ostenta\u00e7\u00e3o rompe com o hip hop mais politizado dos anos 1980 e 1990 ou se oferece uma das muitas poss\u00edveis continuidades a esse movimento cultural. Parece-me que o funk ostenta\u00e7\u00e3o \u00e9 uma releitura paulista, muito influenciada pelo hip hop, do funk carioca. Muitos MCs de funk eram MCs de hip hop, muitos deles, al\u00e9m dos funks, cantam tamb\u00e9m raps, e m\u00fasicas dos Racionais s\u00e3o ouvidas nos shows. Trechos de letras de m\u00fasicas dos Racionais podem ser encontrados facilmente nas letras do funk. Agora, o fato \u00e9 que o funk n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o marcado pela quest\u00e3o pol\u00edtica como o hip hop. O Montanha, de Cidade Tiradentes, disse-me algo interessante, certa vez, de que, na verdade, o hip hop ofereceria um espa\u00e7o de express\u00e3o pol\u00edtica que faltava aos jovens, j\u00e1 o funk \u00e9 um espa\u00e7o de lazer e de sociabilidade. Parece-me uma reflex\u00e3o interessante. N\u00e3o que o hip hop n\u00e3o possa conter lazer e sociabilidade tamb\u00e9m, nem o funk, protesto pol\u00edtico, mas que as duas vertentes tendem para um dos polos. O funk, ali\u00e1s, ganhou esse grande espa\u00e7o junto aos jovens das periferias de S\u00e3o Paulo porque, nessa articula\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o de lazer, configurou-se um espa\u00e7o para as mulheres que, no hip hop, era mais dif\u00edcil. As mulheres s\u00e3o presen\u00e7a fundamental nos bailes funks. O protagonismo da dan\u00e7a sempre foi delas. Ainda que os meninos tamb\u00e9m dancem e as meninas participem cada vez mais como MCs. O hip hop sempre foi muito mais masculino, da dan\u00e7a ao estilo de se vestir.<\/p>\n<p>P.\u00a0Mas qual \u00e9 a diferen\u00e7a, na sua opini\u00e3o, entre a forma como, por exemplo, os Racionais falam em consumo e os MCs da ostenta\u00e7\u00e3o falam de consumo?<\/p>\n<div>\n<blockquote>\n<h2>Devemos questionar n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o dos meninos, mas as rela\u00e7\u00f5es sociais fomentadas na contemporaneidade que se pautam cada vez mais pela busca do reconhecimento pelo consumo, pela posse de bens.\u201d<\/h2>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<p>R.\u00a0H\u00e1 a\u00ed duas perspectivas. Quando digo que os Racionais j\u00e1 cantavam isso, quero dizer que eles j\u00e1 identificavam essa necessidade de consumir da juventude. E de consumir o que eles achavam que era bom, nada de consumo consciente. Por isso digo que os Racionais j\u00e1 faziam, h\u00e1 mais de dez anos, uma leitura desse anseio por consumir dos jovens pobres. Por outro lado, h\u00e1 essa dimens\u00e3o de movimentos como o dos escritores da periferia, promovendo produtos da periferia, pela periferia. O funk ostenta\u00e7\u00e3o come\u00e7a sem se preocupar com essa quest\u00e3o diretamente. Ele n\u00e3o tem dor na consci\u00eancia por cantar o consumo em suas m\u00fasicas e aderir ao sistema, por exemplo. Por\u00e9m, indiretamente, se acaba chegando a um outro ponto, na medida em que uma parcela consider\u00e1vel de jovens da periferia passa a possuir algum tipo de renda com a produ\u00e7\u00e3o do funk. Sejam os meninos que gravam os videoclipes, os pr\u00f3prios MCs, mas tamb\u00e9m empres\u00e1rios, produtores, t\u00e9cnicos e mesmo alguns MCs tornando-se empreendedores e criando seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios. Como o MC Nego Blue, que observando de perto o sucesso das roupas de grife entre os jovens, criou a Black Blue, uma loja de roupas cujo s\u00edmbolo \u00e9 uma carpa colorida. Hoje, al\u00e9m de possuir lojas pr\u00f3prias, j\u00e1 vende suas roupas em lojas multimarcas, ao lado de camisas da Lacoste ou de outras marcas famosas que os meninos procuram, e por um pre\u00e7o muito parecido. Uma das empresas que agencia shows de funk em Cidade Tiradentes chama-se justamente \u201cN\u00f3is por n\u00f3is\u201d.<\/p>\n<p>Os rolezinhos parecem dizer: n\u00e3o apenas queremos consumir, mas queremos ocupar em massa e se divertir a\u00ed nos seus shoppings, nos seus ou nos nossos. \u00c9 importante perceber tamb\u00e9m que os shoppings onde os eventos ocorreram est\u00e3o em regi\u00f5es mais perif\u00e9ricas, provavelmente pr\u00f3ximos ao pr\u00f3prio bairro de moradia dos jovens. Por enquanto, eles n\u00e3o t\u00eam ido aos templos maiores do consumo de luxo na cidade, na regi\u00e3o dos Jardins, Faria Lima, Marginal Pinheiros etc. Pode haver a\u00ed tamb\u00e9m um componente de um termo que surgiu muito forte para mim na pesquisa que fiz em escolas de ensino m\u00e9dio, no meu doutorado, que \u00e9 a ideia do \u201czoar\u201d. Eles querem zoar, que \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para si e se divertir, namorar, brincar e, se for preciso, brigar.<\/p>\n<p>P.\u00a0Por que, neste momento, o lazer se imp\u00f5e como uma reivindica\u00e7\u00e3o desta gera\u00e7\u00e3o, acima de quest\u00f5es como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e transporte de qualidade?<\/p>\n<p>R.\u00a0Acho que n\u00e3o h\u00e1 uma reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica bem formuladinha como acontecia com o hip hop: queremos mais sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e lazer. Eles simplesmente querem estar nos shoppings para zoar e v\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 essa reflex\u00e3o mais elaborada que o hip hop produz, \u00e9 mais espont\u00e2neo. Esse talvez possa ser um ponto de distin\u00e7\u00e3o. E o pr\u00f3prio funk \u00e9, por si s\u00f3, lazer e divers\u00e3o, um dispositivo poderos\u00edssimo para dan\u00e7ar e motivar paqueras. O zoar pode ser lido como um ato pol\u00edtico, mas n\u00e3o me parece intencional. Acho que cria uma tens\u00e3o que \u00e9 pol\u00edtica, que \u00e9 de disputa de poder pelos espa\u00e7os da cidade, mas n\u00e3o h\u00e1 um manifesto pela zoeira ou pelos rolezinhos, como houve, por exemplo, no caso do manifesto da arte perif\u00e9rica dos escritores.<\/p>\n<p>P.\u00a0H\u00e1 tamb\u00e9m um movimento maior para sair dos guetos e ocupar os guetos da classe m\u00e9dia? Em massa e n\u00e3o mais individualmente, como quando um grupo de rap aparecia numa TV, mesmo sendo a MTV, ou um escritor do movimento liter\u00e1rio marginal ou perif\u00e9rico publicava numa grande editora? Esta \u00e9 uma novidade importante?<\/p>\n<p>R.\u00a0Acho que abre, sim, para fora do gueto, do bairro onde se vive, mas n\u00e3o para muito longe, pois, afinal, os shoppings para os quais eles v\u00e3o est\u00e3o do lado de suas casas. Neste sentido, acho que o hip hop, apesar de falar mais do gueto, abre-se muito mais para fora do gueto, na medida em que conquista um espa\u00e7o importante nas pol\u00edticas p\u00fablicas de cultura, por exemplo.<\/p>\n<div>\n<h2>\u00c9 como se a sociedade dissesse: \u2018Voc\u00eas, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, s\u00f3 para zoar e cantar funk, a\u00ed j\u00e1 \u00e9 vandalismo\u2019.\u201d<\/h2>\n<\/div>\n<p>Claro que esse espa\u00e7o de lazer \u00e9 problem\u00e1tico e conflitivo mesmo dentro dos bairros das periferias onde moram esses jovens. Se entrevistarmos os seus vizinhos, certamente a maioria vai se posicionar totalmente favor\u00e1vel \u00e0 proibi\u00e7\u00e3o das festas de rua que eles organizam, com som alto que muitas vezes toma a madrugada toda. Por isso, acho importante n\u00e3o tomar o funk nem como um movimento libertador, nem como o grande vil\u00e3o ou o grande movimento de corrup\u00e7\u00e3o da juventude contempor\u00e2nea, como setores mais moralistas, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, tendem a fazer.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do consumo tamb\u00e9m me parece problem\u00e1tica. O desejo pelo consumo sempre existiu. Bem antes do governo Lula, o processo de urbaniza\u00e7\u00e3o induz a esse apego maior ao consumo. Por\u00e9m, n\u00e3o d\u00e1 para se negar que houve, nos \u00faltimos anos, tamb\u00e9m uma melhora econ\u00f4mica para segmentos que antes estavam bastante afastados do mercado. Por\u00e9m, acho que reduzir o sucesso do funk da ostenta\u00e7\u00e3o a isso \u00e9 simplificar demais o movimento e esquecer que ocorreram e ocorrem movimentos juvenis parecidos em outras partes do mundo, como o pr\u00f3prio gangsta rap, nos Estados Unidos, no qual os videoclipes se inspiram.<\/p>\n<p>Devemos questionar n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o dos meninos, mas as rela\u00e7\u00f5es sociais fomentadas na contemporaneidade. \u00c9 preciso conceder aos jovens, e n\u00e3o apenas aos pobres, mas aos de classe m\u00e9dia e alta tamb\u00e9m, outros espa\u00e7os de reconhecimento e de estabelecimento de rela\u00e7\u00f5es sociais que n\u00e3o sejam pautados pela afirma\u00e7\u00e3o por meio da posse e do consumo de bens. Porque, afinal, como dizem os Racionais, mais uma vez: \u201cQuem n\u00e3o quer brilhar, quem n\u00e3o? Mostra quem. Ningu\u00e9m quer ser coadjuvante de ningu\u00e9m\u201d. De repente, para alguns, ter um t\u00eanis caro, um smartphone de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o ou ir ao shopping para zoar, pode ser uma forma encontrada para tentar brilhar.<\/p>\n<p>P.\u00a0Ao ocupar os shoppings, os adeptos do funk da ostenta\u00e7\u00e3o estariam promovendo sua primeira atitude de insurg\u00eancia contra o sistema, no sentido de: \u201cVou ocupar o espa\u00e7o que me \u00e9 negado ou onde n\u00e3o me querem\u201d. \u00c9 isso? Ou as pr\u00f3prias letras das m\u00fasicas, interpretadas, em geral, como ades\u00e3o ao sistema, j\u00e1 seriam, de fato, uma insurg\u00eancia, na medida que se apropriam, simbolicamente, dos valores da elite e da classe m\u00e9dia e, agora, com os rolezinhos, tamb\u00e9m de seus espa\u00e7os f\u00edsicos?<\/p>\n<p>R.\u00a0Sim, acho que essa \u00e9 a maior irrita\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia com esses movimentos. Basta ver os coment\u00e1rios aos videoclipes no YouTube, irritados com os meninos ostentando e exibindo-se com produtos mais caros, que n\u00e3o deveriam estar com aqueles meninos, pobre e negros, em sua maioria. Esta \u00e9 a principal insurg\u00eancia que eles provocam. A classe m\u00e9dia, de uma maneira geral, a mais pobre ou a mais rica, a mais ou menos intelectualizada, irrita-se bastante quando os subalternos compram bens caros, mesmo antes deles. J\u00e1 ouvi coment\u00e1rios indignados, do tipo: \u201cMinha empregada comprou uma televis\u00e3o de \u00faltima gera\u00e7\u00e3o, melhor do que a minha\u201d. Isso tem antecedentes hist\u00f3ricos que parecem refletir at\u00e9 hoje. James Holston, ainda no livro sobre cidadania insurgente, que citei anteriormente, traz como exemplo a legisla\u00e7\u00e3o colonial portuguesa, que proibia aos negros o uso de joias e artigos considerados finos&#8230;<\/p>\n<p>P.\u00a0Parece que os \u201crolezeiros\u201d dos shoppings est\u00e3o ocupando o mesmo lugar simb\u00f3lico dos \u201cv\u00e2ndalos\u201d nas manifesta\u00e7\u00f5es, na narrativa feita por parte da grande m\u00eddia e pelas autoridades institu\u00eddas. Como voc\u00ea interpreta essa rea\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<div>\n<h2>Os coment\u00e1rios em sites e redes sociais revelam esse profundo racismo entranhado em parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o brasileira.\u201d<\/h2>\n<\/div>\n<p>R.\u00a0O que me assustou de verdade nessa hist\u00f3ria toda foram as rea\u00e7\u00f5es, de m\u00eddia e de pol\u00edcia, condenando e mandando prender, mesmo em casos em que disseram que n\u00e3o houve arrast\u00f5es, mas correrias. Fico questionando quem provocou a correria: os jovens ou a a\u00e7\u00e3o dos seguran\u00e7as e da pol\u00edcia? Eventos como estes revelam tamb\u00e9m uma faceta complicada e extremamente preconceituosa da classe m\u00e9dia brasileira. Dei uma entrevista curta para o site de um grande grupo de comunica\u00e7\u00e3o e fiquei assustado ao ler os coment\u00e1rios dos leitores, de um \u00f3dio terr\u00edvel contras os meninos e meninas que foram aos shoppings, contra os pobres, contra mim, que tive uma fala dissonante na entrevista, ressaltando a forma preconceituosa com que tal tema vinha sendo tratado. Ao falarem do evento, algumas palavras utilizadas como categorias de acusa\u00e7\u00e3o contra os jovens e as jovens foram bastante reveladoras do preconceito, e mesmo do racismo, deste segmento social: \u201cfavelados\u201d, \u201cmaloqueiros\u201d, \u201cbandidos\u201d, \u201cprostitutas\u201d e \u201cnegros\u201d. Nesse \u00faltimo caso, inclusive, fica evidente o racismo que aparece em muitos coment\u00e1rios dessa not\u00edcia, mas tamb\u00e9m nas comunidades dos rolezinhos que os jovens criaram nas redes sociais. Um dos coment\u00e1rios pede para que os jovens voltem para a \u00c1frica. Isso \u00e9 muito grave. Revela esse profundo racismo entranhado em parcela consider\u00e1vel da popula\u00e7\u00e3o. Como se tal sociedade dissesse, por meio dos representantes dos shoppings, da m\u00eddia e da pol\u00edcia, brincando um pouco com a quest\u00e3o das manifesta\u00e7\u00f5es de junho: \u201cVoc\u00eas, pobres, podem consumir, mas ir ao shopping em grandes grupos, s\u00f3 para zoar e cantar funk, a\u00ed j\u00e1 \u00e9 vandalismo\u201d.<\/p>\n<p>P.\u00a0A classe m\u00e9dia \u00e9 racista?<\/p>\n<p>R.\u00a0O que chamamos de classe m\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 um todo homog\u00eaneo. \u00c9 poss\u00edvel segment\u00e1-la em diferentes n\u00edveis e a partir de diferentes contextos, \u00e9 poss\u00edvel pensar em uma classe m\u00e9dia intelectualizada ou n\u00e3o intelectualizada. Contudo, parece-me que a divis\u00e3o mais importante para se pensar a classe m\u00e9dia em S\u00e3o Paulo \u00e9 a que se d\u00e1 por crit\u00e9rios socioecon\u00f4micos e espaciais. H\u00e1 a classe m\u00e9dia que est\u00e1 concentrada principalmente no entorno do eixo central, que vai do Centro a Pinheiros, passando pela Avenida Paulista e bairros pr\u00f3ximos. Esta, em sua maioria, vive numa bolha e tem poucos contatos com outras classes sociais, com exce\u00e7\u00e3o dos trabalhadores subalternos: porteiros, empregadas dom\u00e9sticas etc. Para esta, em grande medida, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, h\u00e1 tamb\u00e9m certa classe m\u00e9dia baixa que vive na periferia. Citando novamente o Holston, ele fala de uma diferencia\u00e7\u00e3o que se produziu nas periferias de S\u00e3o Paulo entre aqueles que compraram seus terrenos, ainda que por meio de contratos obscuros, e aqueles que ocuparam os espa\u00e7os da cidade, formando as favelas. Essa pequena diferen\u00e7a n\u00e3o cria um grande abismo econ\u00f4mico, mas produz uma profunda diferencia\u00e7\u00e3o, por meio do qual um grupo estigmatiza o outro. J\u00e1 vi um indiv\u00edduo desta classe m\u00e9dia da periferia questionando programas como o bolsa fam\u00edlia, porque tinha visto potes vazios de iogurte no lixo da favela. Este indiv\u00edduo afirmava que nem ele consumia iogurte com tanta frequ\u00eancia, como eles se davam ao direito de consumir tal produto, que era um luxo, raro, mas sobre o qual ele detinha certa exclusividade?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do aux\u00edlio aos mais pobres, principalmente o bolsa fam\u00edlia, \u00e9 um forte fator de estigmatiza\u00e7\u00e3o por parte desses diferentes segmentos da classe m\u00e9dia, mas principalmente por parte dessa classe m\u00e9dia da periferia. Estive, recentemente, em uma escola p\u00fablica pr\u00f3xima a uma grande favela de S\u00e3o Paulo. Segundo os professores, um dos problemas daquela escola era o fato de que 90% dos alunos vinham da favela vizinha. E que, hoje, esses alunos estavam muito acomodados, pois viviam de bolsas e na favela tinham tudo muito f\u00e1cil, com a grande quantidade de projetos presentes por l\u00e1. Inclusive, projetos de m\u00fasica, ressaltou um professor. \u00c9 muito importante refletir sobre isso, porque esses professores, se n\u00e3o moram na favela, s\u00e3o vizinhos dela. Mas, ainda assim, permitem-se diferenciar-se dos jovens por quest\u00f5es muito pequenas. E s\u00e3o estes professores os respons\u00e1veis por formar esses jovens. Ser\u00e1 que, com este olhar, s\u00e3o capazes de lutar para que a escola se torne um espa\u00e7o de conviv\u00eancia, afirma\u00e7\u00e3o e reconhecimento para os jovens?<\/p>\n<p>P.\u00a0Como voc\u00ea, que tem acompanhado o cotidiano de escolas p\u00fablicas, em S\u00e3o Paulo, percebe a educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<div>\n<h2>Para uma parcela da classe m\u00e9dia de S\u00e3o Paulo, o Shopping Itaquera pode estar mais distante do que Paris ou Londres.\u201d<\/h2>\n<\/div>\n<p>R.\u00a0\u00c9 necess\u00e1rio pensarmos em uma educa\u00e7\u00e3o para as diferen\u00e7as, para que n\u00e3o caiamos mais na armadilha da intoler\u00e2ncia e das an\u00e1lises apressadas e preconceituosas de setores das elites e das camadas m\u00e9dias, ao se referirem aos \u201csubalternos\u201d. Lembro-me de um document\u00e1rio portugu\u00eas, que vale a pena ser assistido, sobre a hist\u00f3ria de um arrast\u00e3o que n\u00e3o existiu. Chama-se: \u201cEra uma vez um arrast\u00e3o\u201d (<a href=\"http:\/\/www.dailymotion.com\/video\/xe4px_era-uma-vez-um-arrastao_news\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">assista\u00a0aqui<\/a>). Nele, conta-se do dia em que jovens caboverdianos ou descendentes de caboverdianos resolveram frequentar a nobre praia de Carcavelos, em Portugal. A pol\u00edcia, ao ver a concentra\u00e7\u00e3o de jovens de origem africana, assustou-se e resolveu intervir, provocando uma grande correria, que foi noticiada como arrast\u00e3o. Mas, de fato, os jovens fugiam da repress\u00e3o policial gratuita. Isso talvez nos ensine algo sobre os arrast\u00f5es que estamos a criar todo dia, criminalizando jovens pobres cotidianamente.<\/p>\n<p>Quando estive pesquisando em escolas p\u00fablicas da periferia de S\u00e3o Paulo, era comum ouvir dos professores que, naquela escola, os alunos eram todos bandidos ou marginais. O discurso da criminaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 efetivo e poderoso e condena muita gente ao fracasso escolar e mesmo ao crime. O soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman, num livro sobre educa\u00e7\u00e3o e juventude, ressalta a necessidade cada vez mais premente, na contemporaneidade, de desenvolvermos a arte de conviver com os estranhos e a diferen\u00e7a. Em especial num mundo no qual as migra\u00e7\u00f5es tendem a aumentar cada vez mais. No nosso caso, n\u00e3o foi preciso a chegada de estrangeiros para a express\u00e3o das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros \u00e9ramos n\u00f3s, os brasileiros. Mas brasileiros que moram muito, muito distante, ainda que vizinhos. Moram em Guaianazes, Cap\u00e3o Redondo, Graja\u00fa, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasil\u00e2ndia&#8230;<\/p>\n<p>P.\u00a0Em que medida, na sua opini\u00e3o, os rolezinhos se ligam \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es de junho?<\/p>\n<p>R.\u00a0Acho que n\u00e3o h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o direta. Mas, indiretamente, \u00e9 poss\u00edvel perceber a reivindica\u00e7\u00e3o comum do uso do espa\u00e7o p\u00fablico e de quebra das marcas da segrega\u00e7\u00e3o. Lembro-me que, antes das manifesta\u00e7\u00f5es de junho, para a imprensa conservadora era um tabu ocupar a Avenida Paulista. Os movimentos sociais mostraram que n\u00e3o apenas n\u00e3o era um tabu, como era um direito, o direito de ir \u00e0s ruas e ocup\u00e1-las para protestar. Os rolezinhos n\u00e3o parecem ter uma pauta t\u00e3o clara, mas tamb\u00e9m est\u00e3o, ainda que indiretamente, dizendo: \u201cVoc\u00eas n\u00e3o disseram que era bom consumir? Pois bem, n\u00f3s tamb\u00e9m queremos!\u201d<\/p>\n<p>P.\u00a0Essa ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os que supostamente pertenceriam a \u201coutros\u201d, tanto no caso das manifesta\u00e7\u00f5es como no caso dos rolezinhos, parece marcar uma novidade importante. O que est\u00e1 acontecendo?<\/p>\n<p>R.\u00a0\u00a0Acho que a novidade est\u00e1 a\u00ed, mas \u00e9 dif\u00edcil dizer o que est\u00e1 acontecendo ou o que acontecer\u00e1. Pode ser apenas um surto \u2013 algo parecido com o que foi a revolta da vacina como rea\u00e7\u00e3o \u00e0s propostas pol\u00edticas opressoras de reforma sanit\u00e1ria do Rio de Janeiro, por exemplo \u2013 ou pode ser uma nova forma de pensar os espa\u00e7os p\u00fablicos e privados nas cidades brasileiras. Por\u00e9m, \u00e9 dif\u00edcil prever. Os rolezinhos podem ter acabado nesta semana, por exemplo. E movimentos como os de junho n\u00e3o se repetiram com tanta intensidade e repercuss\u00e3o. Contudo, o que movimentos como estes garantem \u00e9 a possibilidade de se tensionar essa ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os urbanos, amplamente negada at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<div>\n<h2>Aqui n\u00e3o foi preciso a chegada de estrangeiros para a express\u00e3o das mais brutais formas de preconceito, pois os estrangeiros \u00e9ramos n\u00f3s, os brasileiros que moram em Guaianazes, Cap\u00e3o Redondo, Graja\u00fa, Cidade Ademar, Cidade Tiradentes, Vila Brasil\u00e2ndia&#8230;\u201d<\/h2>\n<\/div>\n<p>P.\u00a0Por que este nome, rolezinho? E que significados ele cont\u00e9m?<\/p>\n<p>R.\u00a0Rolezinho \u00e9 um termo que est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 ideia de lazer. De sair para se divertir e usufruir da cidade. Os pichadores, com os quais realizei pesquisa no mestrado, tamb\u00e9m usam a ideia de rol\u00ea, para se referirem \u00e0s suas picha\u00e7\u00f5es. Com isso est\u00e3o dizendo que pichar \u00e9 dar voltas para conhecer e se apropriar da cidade. Parece que, por este termo, indiretamente, podemos entender uma reivindica\u00e7\u00e3o pelo direito de se divertir na cidade.<\/p>\n<p>P.\u00a0Divertir-se na cidade n\u00e3o seria um ato de insubordina\u00e7\u00e3o para jovens pobres e negros? Talvez at\u00e9 o maior ato de insubordina\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R.\u00a0Sim, principalmente numa sociedade em que pobres e negros t\u00eam que trabalhar \u2013 e apenas trabalhar \u2013 sem reclamar. Lembremos de que a ROTA, no final do regime militar, atuava nas periferias abordando os moradores e cobrando-lhes a carteira profissional como prova de que eram trabalhadores e n\u00e3o vagabundos. Devotados, portanto, ao trabalho e n\u00e3o \u00e0 divers\u00e3o. Agora, claro que esses jovens n\u00e3o est\u00e3o pensando exatamente nisso. Querem muito mais \u00e9 se divertir.<\/p>\n<p>P.\u00a0Como entender este fen\u00f4meno, que \u00e9, ao mesmo tempo, uma insubordina\u00e7\u00e3o e uma ades\u00e3o ao sistema?<\/p>\n<p>R.\u00a0\u00a0Acho que a melhor palavra \u00e9 paradoxo. O funk da ostenta\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo \u00e9 paradoxal: n\u00e3o d\u00e1 para situ\u00e1-lo num polo ou noutro, dentro do modo tradicional de pensar a pol\u00edtica. Conservador ou revolucion\u00e1rio? Nenhum dos dois, mas com possibilidade para os dois ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p>Eliane Brum\u00a0\u00e9 escritora, rep\u00f3rter e documentarista. Autora dos livros de n\u00e3o fic\u00e7\u00e3o\u00a0<em>A Vida Que Ningu\u00e9m v\u00ea, O Olho da Rua<\/em> e\u00a0<em>A Menina Quebrada<\/em> e do romance\u00a0<em>Uma Duas<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/dd>\n<\/dl>\n<p><a href=\"http:\/\/www.geledes.org.br\/em-debate\/colunistas\/22538-rolezinhos-o-que-estes-jovens-estao-roubando-da-classe-media-brasileira-por-eliane-brum\">http:\/\/www.geledes.org.br\/em-debate\/colunistas\/22538-rolezinhos-o-que-estes-jovens-estao-roubando-da-classe-media-brasileira-por-eliane-brum<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Categoria:\u00a0Colunistas Publicado em Quarta, 25 Dezembro 2013 Os novos \u201cv\u00e2ndalos\u201d do Brasil O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de S\u00e3o Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta \u00e9 a de sempre: criminaliza\u00e7\u00e3o. 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