{"id":2684,"date":"2012-08-06T21:02:22","date_gmt":"2012-08-06T23:02:22","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=2684"},"modified":"2022-09-04T21:16:55","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:55","slug":"cansados-de-esperar-indigenas-comecam-autodemarcacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumjustica.com.br\/es\/cansados-de-esperar-indigenas-comecam-autodemarcacao\/","title":{"rendered":"Cansados de esperar, ind\u00edgenas come\u00e7am autodemarca\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/\">http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/10218<\/a><\/p>\n<p>Os Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a realizam a retomada de territ\u00f3rios para pressionar o governo e exigir agilidade da Justi\u00e7a<\/p>\n<p>31\/07\/2012<br \/>\n\u00c1urea Lopes, de Ilh\u00e9us (BA)<\/p>\n<p><div id=\"attachment_2685\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/tupinamb-_bahia_aurea_lopes.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2685\" src=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/tupinamb-_bahia_aurea_lopes.gif\" alt=\"\" title=\"tupinamb\u00e1_bahia_aurea_lopes\" width=\"400\" height=\"250\" class=\"size-full wp-image-2685\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2685\" class=\"wp-caption-text\">Tupinamb\u00e1s retomam fazenda no Sul da Bahia como forma de press\u00e3o  Foto: \u00c1urea Lopes<\/p><\/div><br \/>\nEles esperam h\u00e1 512 anos para voltar a ter o que lhes \u00e9 de direito por natureza. Eles esperam ter um lugar para morar em paz, uma terra para plantar o que comer e o que possa garantir sua subsist\u00eancia, um espa\u00e7o para preservar sua cultura e exercer suas cren\u00e7as, como fazem todos os brasileiros. Eles esperam que cesse a persegui\u00e7\u00e3o que os expulsa de seus terrenos para dar lugar ao agroneg\u00f3cio, esperam que seja impedida a devasta\u00e7\u00e3o de suas florestas e a polui\u00e7\u00e3o de seus rios, esperam que a Justi\u00e7a coloque na cadeia os fazendeiros que mant\u00eam seus parentes trabalhando em regime de escravid\u00e3o, esperam coibi\u00e7\u00e3o e puni\u00e7\u00e3o a amea\u00e7as de morte, desaparecimentos de \u00edndios e estupros de \u00edndias.<\/p>\n<p>Os Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a, em Ilh\u00e9us (BA), est\u00e3o, decididamente, cansados de tanto esperar. De esperar, tamb\u00e9m, que situa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o e viola\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais como essas, detalhadas no relat\u00f3rio de 6 mil p\u00e1ginas que comp\u00f5e o processo de demarca\u00e7\u00e3o encaminhado pela Funai receba um parecer do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a \u2013 o prazo se esgotou em junho.<\/p>\n<p>Por isso, os Tupinamb\u00e1 decidiram iniciar sua autodemarca\u00e7\u00e3o, uma forma de luta para chamar a aten\u00e7\u00e3o das autoridades e fazer valer seus direitos. No dia 14 de julho, foi feita a primeira retomada de um territ\u00f3rio ind\u00edgena pr\u00f3ximo \u00e0 aldeia Santana, \u00e1rea ainda dominada por coron\u00e9is do cacau, agropecuaristas e grandes plantadores de palmito s\u00f3 para exporta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de monocultivos que est\u00e3o destruindo a flora e fauna locais. Desde ent\u00e3o, foram retomadas aproximadamente vinte fazendas, em a\u00e7\u00f5es totalmente pac\u00edficas, muitas vezes com os ocupantes reconhecendo que estavam instalados em terras ind\u00edgenas. Uma das recentes retomadas foi na aldeia Potyur, que j\u00e1 havia sido ocupada h\u00e1 dois anos, mas houve uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse a favor do fazendeiro. No entanto, ele n\u00e3o voltou a morar na fazenda, que ficou abandonada. \u201cEles tiram os \u00edndios com a reintegra\u00e7\u00e3o e deixam tudo abandonado\u201d, diz o cacique Acau\u00e3, um dos doze caciques do povo Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a. \u201cSe \u00e9 para fazer isso, a Justi\u00e7a devia tratar igual as duas partes: sai fazendeiro, n\u00e3o entra \u00edndio, mas o Estado cuida da \u00e1rea, n\u00e3o deixa deteriorar\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Criminaliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>O cacique esclarece o car\u00e1ter pac\u00edfico das a\u00e7\u00f5es, que v\u00eam sendo criminalizadas pela m\u00eddia local: \u201cQueremos viver tranquilos, resgatar nossa l\u00edngua, acabar com o trabalho escravo de nossos parentes, acabar com a venda de bebida alco\u00f3lica para os \u00edndios, como forma de manipula\u00e7\u00e3o. Queremos ser tratados como cidad\u00e3os que somos. N\u00e3o estamos pedindo o Brasil inteiro, sabemos que o pa\u00eds tem de andar. E outros povos tamb\u00e9m precisam de terra&#8230; os brancos, os quilombolas, os pequenos agricultores&#8230; nossa reivindica\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas o territ\u00f3rio nosso para sobreviver\u201d. Acau\u00e3 refor\u00e7a ainda que, \u201cse a Justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 capaz de impedir as agress\u00f5es ao ambiente, o \u00edndio tem de preservar, porque o \u00edndio \u00e9 a natureza\u201d.<\/p>\n<p>A maior parte das supostas propriedades, alerta um jovem e combativo ind\u00edgena que participa das retomadas, n\u00e3o \u00e9 habitada por fazendeiros, mas por meeiros ou por fam\u00edlias obrigadas a trabalhar por sal\u00e1rios que n\u00e3o pagam as despesas cobradas por moradia e alimenta\u00e7\u00e3o. Um ind\u00edgena que trabalha nessa situa\u00e7\u00e3o conta: \u201cToda minha fam\u00edlia trabalha na fazenda h\u00e1 muito tempo. Eu s\u00f3 tenho um ano e meio. O trabalho \u00e9 muito pesado, pois a fazenda tem mais de 400 hectares, um extenso cultivo de cacau e n\u00f3s s\u00f3 somos seis\u201d. Juntando tudo que ele ganha no ano, chega a R$ 4 mil, mas desse dinheiro tem que dar 50% ao fazendeiro e tirar o necess\u00e1rio para comprar suas pr\u00f3prias ferramentas.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o temos nada contra essa gente, esses pequenos agricultores, somos todos do mesmo n\u00edvel, nossa briga \u00e9 com os exploradores\u201d, diz essa jovem lideran\u00e7a. Outro jovem, tamb\u00e9m representativa lideran\u00e7a nas retomadas, explica o esp\u00edrito da jornada: \u201cA ideia \u00e9 plantar, reflorestar e daqui poder tirar nosso sustento. Aqui vamos ter a mata, os p\u00e1ssaros, os peixes&#8230; muito diferente de viver na periferia, onde os parentes est\u00e3o espalhados. Esse territ\u00f3rio sempre foi nosso, meus ancestrais sempre viveram aqui, meu bisav\u00f4, meu pai, eu, meus dois fi lhos temos de viver do que \u00e9 nosso. Nossa luta n\u00e3o \u00e9 contra os agricultores, nossa luta \u00e9 contra o governo que n\u00e3o faz o papel dele, de demarcar a nossa terra. E a gente acaba sofrendo discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito\u201d.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do noticiado em \u00f3rg\u00e3os de imprensa local, que procura criminalizar os Tupinamb\u00e1s, as retomadas s\u00e3o pac\u00edficas. \u201cA gente vem, conversa, d\u00e1 um tempo para o ocupante retirar tudo o que \u00e9 seu, n\u00e3o queremos nada que n\u00e3o \u00e9 nosso. Eles levam todos os m\u00f3veis, pertences&#8230; podiam levar at\u00e9 a casa! Porque a gente n\u00e3o quer isso, a gente quer s\u00f3 a nossa terra\u201d, desabafa o jovem de 28 anos.<\/p>\n<p><div id=\"attachment_2686\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Tupinamb-de-olivenca_Ronaldo-Silva-Secult-BA-.gif\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-2686\" src=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/Tupinamb-de-olivenca_Ronaldo-Silva-Secult-BA-.gif\" alt=\"\" title=\"Tupinamb\u00e1-de-olivenca_Ronaldo-Silva-Secult-BA--\" width=\"300\" height=\"400\" class=\"size-full wp-image-2686\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-2686\" class=\"wp-caption-text\">Ritual do povo Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a  Foto: Ronaldo Silva\/Secult-BA<\/p><\/div><br \/>\nDetermina\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Aos 80 anos, com dez filhos e 30 netos, dona Nivalda, que j\u00e1 foi cacique Tupinamb\u00e1, mostra o mesmo sofrimento, mas tamb\u00e9m a mesma garra de conquistar o que \u00e9 seu. Ela participa das retomadas e sonha com um \u201clugar fixo\u201d para fazer sua ro\u00e7a. Volunt\u00e1ria da Pastoral da Juventude, dona Nivalda j\u00e1 esteve com o presidente Lula e pediu a ele uma escola ind\u00edgena para a aldeia \u2013 conseguiu. Ela lembra que sua av\u00f3 foi a \u00fanica a resistir \u00e0 expuls\u00e3o dos ind\u00edgenas de Oliven\u00e7a. \u201cEla disse: daqui, s\u00f3 saio morta. Ela constru\u00eda uma casa e eles derrubavam, constru\u00eda, derrubavam&#8230; at\u00e9 que fizeram uma casa de tijolo por dentro da casa de palha. A constru\u00e7\u00e3o era feita de noite, pra ningu\u00e9m ver. Um belo dia, tiraram a palha e l\u00e1 estava a casa, que ningu\u00e9m ia derrubar. Foi l\u00e1 que ela morreu\u201d. A av\u00f3 de dona Nivalda era obrigada a ir para o quintal para falar a l\u00edngua nativa, que era proibida. Hoje, a filha de dona Nivalda \u00e9 professora de l\u00edngua ind\u00edgena. \u201cAs coisas mudaram. Antes a gente tinha o direito e n\u00e3o sabia. Hoje a gente sabe. E luta por ele\u201d, se orgulha. (Colaboraram Kaluan\u00e3 Tupinamb\u00e1 e Vilma Almendra)<\/p>\n<p>Mensagem \u00e0 Justi\u00e7a<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Rt-a2OTkt4w&#038;feature=player_embedded\">http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Rt-a2OTkt4w&#038;feature=player_embedded<\/a><\/p>\n<p>\u201cEu quero aproveitar essa reportagem para mandar uma mensagem para a Justi\u00e7a brasileira, para quem faz as nossas leis, senadores, deputados&#8230; que olhem para esse povo sofrido, que n\u00e3o suporta mais tanto sofrer. Um povo que foi massacrado no passado, est\u00e1 sendo massacrado agora, no presente. A gente precisa dessa terra para plantar, viver nossa cultura, o pouco que restou dela. Ent\u00e3o eu fa\u00e7o um apelo: eu acredito na Justi\u00e7a e sigo ela tamb\u00e9m. O que \u00e9 que est\u00e1 impedindo? S\u00e3o os grandes coron\u00e9is? Paguem a eles, indenizem eles, mas tirem eles desta terra, que \u00e9 do povo Tupinamb\u00e1. N\u00e3o aguentamos mais. \u00c9 a pol\u00edcia federal de um lado querendo nos pegar, \u00e9 posseiro do outro querendo nos pegar&#8230; pistolagem por outro lado. Em julho do ano passado, eu estive no minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, no Conselho Nacional de Justi\u00e7a, na AGU, na 6a. C\u00e2mara, levando den\u00fancia de armamento&#8230; levei provas concretas disso. Eu pe\u00e7o, pelo amor de Tup\u00e3, que voc\u00eas levem a s\u00e9rio isso.\u201d<\/p>\n<p>Cacique Acau\u00e3 Tupinamb\u00e1<\/p>\n<p>21 de julho de 2012.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>http:\/\/www.brasildefato.com.br\/node\/10218 Os Tupinamb\u00e1 de Oliven\u00e7a realizam a retomada de territ\u00f3rios para pressionar o governo e exigir agilidade da Justi\u00e7a 31\/07\/2012 \u00c1urea Lopes, de Ilh\u00e9us (BA) Eles esperam h\u00e1 512 anos para voltar a ter o que lhes \u00e9 de direito por natureza. 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