{"id":5452,"date":"2013-03-19T18:05:13","date_gmt":"2013-03-19T20:05:13","guid":{"rendered":"https:\/\/forumjustica.vlannetwork.com\/?p=5452"},"modified":"2022-09-04T21:16:20","modified_gmt":"2022-09-05T00:16:20","slug":"o-autismo-na-era-da-indignacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/forumjustica.com.br\/es\/o-autismo-na-era-da-indignacao\/","title":{"rendered":"O autismo na era da indigna\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>17\/03\/2013 &#8211; 08h03<\/p>\n<p>LUIZ FERNANDO VIANNA<br \/>\nESPECIAL PARA A FOLHA<\/p>\n<p>RESUMO Pai de um menino com autismo, jornalista faz apanhado dos discursos sobre a s\u00edndrome, tanto no campo social e midi\u00e1tico como nos estudos cient\u00edficos. Apesar de progressos pontuais, como lei aprovada em dezembro passado, a car\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas no pa\u00eds e a desinforma\u00e7\u00e3o alimentam o preconceito vigente.<\/p>\n<p>*<br \/>\nNo filme \u00abAs Chaves de Casa\u00bb (2003), de Gianni Amelio, Nicole (Charlotte Rampling) diz a Gianni (Kim Rossi Stuart) como percebeu que ele, embora negasse, era o pai de Paolo (Andrea Rossi), um adolescente com defici\u00eancias f\u00edsicas e intelectuais: pela vergonha estampada em seu rosto. A vergonha \u00e9 um sentimento que tamb\u00e9m n\u00e3o abandona quem tem um filho com autismo &#8211;eu tenho um, de 12 anos.<\/p>\n<p>Se antigamente o deixar\u00edamos trancado em casa, para n\u00e3o exp\u00f4-lo (e n\u00e3o nos expormos) aos olhos da sociedade, hoje nos esfor\u00e7amos para lev\u00e1-lo \u00e0 praia, ao cinema, \u00e0s compras e, sobretudo, \u00e0 escola. Mas a vergonha est\u00e1, com frequ\u00eancia, na nossa cara, porque na cara dos outros \u00e0 volta est\u00e3o o desconhecimento, o desconforto, ou pior, o esc\u00e1rnio, o nojo.<\/p>\n<p>Antes (e ao lado) da vergonha, v\u00eam o luto e a culpa. Depois vem a indigna\u00e7\u00e3o. Essa divis\u00e3o esquem\u00e1tica n\u00e3o sobrevive ao crivo de nenhum psic\u00f3logo ou psiquiatra. N\u00e3o tem problema: uma coisa que um pai de autista aprende logo \u00e9 a se lixar para certos crivos. Assim como nossos filhos, temos um mundo bem particular.<\/p>\n<p>Joel Silva\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Folhapress<\/p>\n<p>Pintura da artista pl\u00e1stica Deborah Paiva para a edi\u00e7\u00e3o de 17 de mar\u00e7o da \u00abIlustr\u00edssima\u00bb<br \/>\nQuem ri de n\u00f3s ou faz cara feia costuma ser alvo de iras avassaladoras. \u00c9 o que anda acontecendo. Se vivemos numa era em que tudo \u00e9 motivo de indigna\u00e7\u00e3o (no Facebook, nas conversas pelo celular, nas mensagens an\u00f4nimas nos sites de not\u00edcias, nos programas matinais de r\u00e1dio, nas revistas semanais, \u00e0s vezes at\u00e9 em pra\u00e7as p\u00fablicas), tamb\u00e9m queremos, em nome dos filhos que tanto amamos, nosso quinh\u00e3o de gritos. A ONU legitima os que poderemos dar no pr\u00f3ximo 2 de abril, Dia Mundial de Conscientiza\u00e7\u00e3o do Autismo.<\/p>\n<p>S\u00cdNDROME<\/p>\n<p>Um resumo sobre o autismo: ele se caracteriza por problemas na comunica\u00e7\u00e3o (mesmo as pessoas verbais t\u00eam fala at\u00edpica e dificuldade para expressar ideias e sentimentos); na socializa\u00e7\u00e3o (possibilidade de mal-estar em meio aos outros, pouco contato visual e compreens\u00e3o por vezes prec\u00e1ria das conversas); e no comportamento (padr\u00f5es repetitivos e movimentos estereotipados, como balan\u00e7ar o corpo). \u00c9 uma s\u00edndrome, um conjunto de sintomas, n\u00e3o exatamente uma doen\u00e7a. No Brasil, n\u00e3o h\u00e1 qualquer estat\u00edstica, mas pesquisas em outros pa\u00edses apontam para algo como um autista em cada cem habitantes. Voc\u00ea n\u00e3o sabe ou n\u00e3o quer saber, mas tem um a\u00ed ao seu lado.<\/p>\n<p>Percebi que meu filho poderia estar nesse quadro da maneira que a maioria dos pais percebe: em fun\u00e7\u00e3o do atraso na fala. Aos dois anos, seu vocabul\u00e1rio era muito pequeno e pouco funcional. Depois de uma romaria por terapeutas, processo sofrido e tamb\u00e9m usual, o diagn\u00f3stico foi fechado quando ele contava quatro anos.<\/p>\n<p>Por v\u00edcio de rep\u00f3rter, que costuma encarar miss\u00e3o dada como miss\u00e3o cumprida, fui apurar o que era necess\u00e1rio fazer para, digamos, resolver a quest\u00e3o. Descobri que o buraco era tremendamente profundo. E que a quest\u00e3o nunca se resolve, \u00e9 para sempre. Ao menos n\u00e3o fiquei patinando no luto, que \u00e9 aterrador. O diagn\u00f3stico significa o desmoronamento das habituais fantasias acerca de filhos e um xeque-mate na pr\u00f3pria vida. Do luto \u00e0 luta leva tempo.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois meses, em seu blog no site da Folha (assimcomovo ce.blogfolha.uol.com.br), o jornalista Jairo Marques chamou os autistas de \u00abpov\u00e3o tchubirube\u00bb, entre outras brincadeiras.<\/p>\n<p>Centenas de pais protestaram junto ao jornal e nas redes sociais. N\u00e3o vou dizer que gostei dos termos, mas, talvez por conhecer Jairo e saber que ele jamais teria um gesto preconceituoso, n\u00e3o me incomodei. Embora compreens\u00edvel, a rea\u00e7\u00e3o foi exagerada.<\/p>\n<p>\u00c9 diferente do quadro \u00abCasa dos Autistas\u00bb, que a MTV apresentou em 2011, com Marcelo Adnet e outros fazendo &#8211;com um alcance, multiplicado pelas sucessivas postagens do v\u00eddeo na internet, muito maior do que o de um jornal&#8211;, a propaganda do bullying, do esc\u00e1rnio. Participei do movimento que levou a emissora, mesmo com relut\u00e2ncia, a se retratar. Jairo riu, n\u00e3o escarneceu. E humor que anda na linha n\u00e3o \u00e9 humor. Mas humor que agride quem n\u00e3o pode se defender tampouco o \u00e9.<\/p>\n<p>Passamos por algo muito pior no final de 2012. Em 14 de dezembro, Adam Lanza, de 20 anos, matou 20 crian\u00e7as e seis mulheres numa escola da cidade de Newtown, em Connecticut, nos Estados Unidos. Antes, matara a pr\u00f3pria m\u00e3e em casa. E, depois de dar por conclu\u00eddo o massacre, atirou em si mesmo.<\/p>\n<p>Seu irm\u00e3o Ryan disse que Adam era \u00abmeio autista\u00bb. A frase correu mundo, esteve em primeiras p\u00e1ginas e despertou nos meios de comunica\u00e7\u00e3o um interesse por investigar as rela\u00e7\u00f5es entre autismo e matan\u00e7as em s\u00e9rie. Os resultados ficaram entre a frustra\u00e7\u00e3o das pautas, por inexist\u00eancia de tais rela\u00e7\u00f5es, e a dissemina\u00e7\u00e3o do preconceito, por ignor\u00e2ncia de quem resolveu tratar do assunto.<\/p>\n<p>Dois dias ap\u00f3s a chacina, o \u00abDoming\u00e3o do Faust\u00e3o\u00bb, programa da Globo cujo repert\u00f3rio de atra\u00e7\u00f5es j\u00e1 \u00e9 habitualmente nefasto, dedicou longos minutos a uma entrevista de seu apresentador com uma desastrada psic\u00f3loga que, mesmo sem desejar, conseguiu misturar S\u00edndrome de Asperger (forma branda de autismo que era, acredita-se, um dos diagn\u00f3sticos de Lanza) com psicopatia. A indigna\u00e7\u00e3o dos pais, preocupados com mais esse estigma sobre seus filhos, virou uma onda que desaguou em outras reportagens, agora mostrando o absurdo da mistura.<\/p>\n<p>A emissora promete tratar do assunto na pr\u00f3xima novela das 21h. Aguardamos com aten\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7osos, pois pode ser uma \u00f3tima forma de divulga\u00e7\u00e3o e esclarecimento.<\/p>\n<p>LEI BERENICE<\/p>\n<p>Foi num gesto contra o preconceito e o isolamento que a presidente Dilma Rousseff sancionou, em 27 de dezembro do ano passado, a lei n\u00ba 12.764\/12, conhecida como Lei Berenice Piana, em homenagem \u00e0 m\u00e3e de Itabora\u00ed (RJ) que tanto batalhou pelo projeto que pode beneficiar seu filho e milhares de outros.<\/p>\n<p>A nova lei d\u00e1 direito a atendimento especializado e obriga o Estado e as entidades privadas a garantir o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e ao mercado de trabalho, dentre outros direitos. Escolas e planos privados de sa\u00fade n\u00e3o poder\u00e3o rejeitar pessoas com autismo, e estas ter\u00e3o como reivindicar prioridade no atendimento. O gestor escolar que recusar a matr\u00edcula de um aluno com defici\u00eancia pode receber multa de 3 a 20 sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n<p>Os pais e profissionais que defendem o ensino especial (por acharem que os alunos aprendem mais assim e ficam protegidos de bullying, argumentos s\u00e9rios que devem sempre ser levados em conta) v\u00eam se queixando de uma desvaloriza\u00e7\u00e3o dos trabalhos voltados diretamente para autistas. Mas a reda\u00e7\u00e3o da lei n\u00e3o impede que as escolas especiais continuem a existir. O que n\u00e3o tem havido \u00e9 incentivo p\u00fablico a essa ala da educa\u00e7\u00e3o, op\u00e7\u00e3o que precisa continuar a ser debatida.<\/p>\n<p>Mais urgente \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica para o autismo. O Estado brasileiro praticamente ignora o assunto. E o passo inicial \u00e9 simples: propagar pelo pa\u00eds a experi\u00eancia da Casa da Esperan\u00e7a, de Fortaleza, refer\u00eancia internacional em atendimento a autistas. O que vemos, no entanto, \u00e9 a casa lutando para n\u00e3o fechar as portas, pois a prefeitura da capital cearense retarda o repasse das verbas do SUS. A maioria dos autistas n\u00e3o vota, ent\u00e3o n\u00e3o interessa aos donos do poder.<\/p>\n<p>E quem somos esses agora indignados, os pais? Por muito tempo, fomos os vil\u00f5es respons\u00e1veis pelo autismo dos nossos filhos.<\/p>\n<p>A s\u00edndrome come\u00e7ou a ser descrita na d\u00e9cada de 1940 pelo norte-americano Leo Kanner (1894-1981) e pelo austr\u00edaco Hans Asperger (1906-80), cada qual em seu continente. N\u00e3o havia, naquela \u00e9poca, condi\u00e7\u00f5es de pesquisa que permitissem a m\u00e9dicos e psic\u00f3logos saber o que sabemos hoje: o autismo \u00e9 fundamentalmente gen\u00e9tico, embora, ao contr\u00e1rio da s\u00edndrome de Down, ainda n\u00e3o seja poss\u00edvel isolar os genes causadores, pois s\u00e3o incont\u00e1veis, e seus funcionamentos variam muito de acordo com a combina\u00e7\u00e3o entre eles.<\/p>\n<p>Resulta que o chamado \u00abespectro autista\u00bb \u00e9 amplo: dos casos severos, com comprometimentos absolutos, aos de alto funcionamento, que podem desenvolver sofisticad\u00edssimos softwares no Vale do Sil\u00edcio. E h\u00e1 os savant, aqueles que t\u00eam facilidade extrema para alguma atividade espec\u00edfica, como a matem\u00e1tica para Kim Peek, o americano que inspirou o filme \u00abRain Man\u00bb &#8211;e que tinha enormes preju\u00edzos em outros campos. Meu filho est\u00e1 no TID-SOE (Transtorno Invasivo do Desenvolvimento sem Outra Especifica\u00e7\u00e3o), a larga faixa entre os extremos.<\/p>\n<p>FRIEZA<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise assumiu, j\u00e1 em meados do s\u00e9culo passado, a hegemonia nas interpreta\u00e7\u00f5es sobre o autismo. E, ent\u00e3o, como n\u00e3o poderia deixar de ser, a culpa sobrou para os pais. Mais especialmente, para as m\u00e3es, cuja suposta frieza causaria o problema.<\/p>\n<p>Bruno Bettelheim (1903-90), psic\u00f3logo norte-americano nascido na \u00c1ustria, cunhou a express\u00e3o \u00abm\u00e3e geladeira\u00bb. E chamou os autistas de \u00abfortaleza vazia\u00bb. As duas imagens, temos certeza hoje, s\u00e3o falsas e est\u00fapidas. Ele e seus seguidores defendiam que os filhos fossem afastados das m\u00e3es para que se cogitasse alguma evolu\u00e7\u00e3o. O mal que Bettelheim fez a gera\u00e7\u00f5es de pais jamais ser\u00e1 sanado.<\/p>\n<p>Parece haver um lugar, no entanto, em que suas ideias continuam sendo respeitadas e a psican\u00e1lise permanece hegem\u00f4nica quando o assunto \u00e9 autismo. Esse lugar \u00e9 a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Ao menos, \u00e9 o que tenta provar Sophie Robert nos 51 minutos de seu filme \u00abLe Mur\u00bb (\u00abO Muro\u00bb). Conclu\u00eddo em 2011, o document\u00e1rio continua sofrendo fortes cr\u00edticas de psicanalistas franceses, e sua exibi\u00e7\u00e3o em cinemas e na TV foi vetada, mas \u00e9 facilmente encontrado &#8211;e muito acessado&#8211; no YouTube. Tr\u00eas dos psicanalistas entrevistados est\u00e3o processando a diretora, alegando que tiveram suas falas deturpadas.<\/p>\n<p>\u00c9 mais correto supor que a edi\u00e7\u00e3o foi capciosa, selecionando o que de pior eles devem ter dito. Sophie Robert n\u00e3o demonstra, nas conversas, a agressividade de um Michael Moore, que nem sequer simula equil\u00edbrio na feitura de seus document\u00e1rios, mas n\u00e3o contemporizou na montagem dos depoimentos. Denuncista, o filme \u00e9 uma colagem de declara\u00e7\u00f5es assustadoras, feitas por disc\u00edpulos tardios de Bettelheim que, embora digam atender autistas, n\u00e3o aparentam ter a mais vaga ideia do que seja conviver com eles.<\/p>\n<p>Joel Silva\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/Folhapress<\/p>\n<div id=\"attachment_5453\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/autismo.jpeg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5453\" class=\"size-full wp-image-5453\" title=\"autismo\" src=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/autismo.jpeg\" alt=\"\" width=\"550\" height=\"955\" srcset=\"https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/autismo.jpeg 550w, https:\/\/forumjustica.com.br\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/autismo-173x300.jpeg 173w\" sizes=\"auto, (max-width: 550px) 100vw, 550px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5453\" class=\"wp-caption-text\">Pintura da artista pl\u00e1stica Deborah Paiva para a edi\u00e7\u00e3o de 17 de mar\u00e7o da &quot;Ilustr\u00edssima&quot;<\/p><\/div>\n<p>O problema \u00e9 que pessoas como essas n\u00e3o vivem em cativeiro na Fran\u00e7a. Est\u00e3o soltas por a\u00ed. A primeira terapeuta \u00e0 qual levei meu filho tinha um consult\u00f3rio chique no Leblon (zona sul do Rio), com div\u00e3 tradicional e tudo. Durante mais de um ano, ela se recusou a dar um diagn\u00f3stico, pois dizia que essa era uma quest\u00e3o restrita ao relacionamento com o cliente, no caso uma crian\u00e7a pouco verbal de tr\u00eas anos de idade. Afirmava que seu papel era estimular o inconsciente do meu filho a aflorar. E que o autismo era um tipo de psicose (absurdo sepultado nos anos 1970, quando ela devia estar na faculdade). De quem era a culpa de tudo? Dos pais, que brigavam muito.<\/p>\n<p>No seu manique\u00edsmo, o filme de Robert acompanha dois adolescentes: Julien, que n\u00e3o avan\u00e7ou por ter ficado submetido \u00e0 psican\u00e1lise, e Guillaume, que progrediu por ser tratado com os m\u00e9todos comportamentais, principalmente o programa de exerc\u00edcios ABA (Applied Behavior Analysis, ou an\u00e1lise comportamental aplicada). Ao reduzir assim um universo t\u00e3o amplo (n\u00e3o h\u00e1 um autista igual a outro), a diretora comete um grande erro e faz propaganda enganosa.<\/p>\n<p>A linha comportamentalista predomina nos pa\u00edses anglo-sax\u00f5es, sobretudo nos Estados Unidos. Consiste numa s\u00e9rie de pr\u00e1ticas visando \u00e0 integra\u00e7\u00e3o social a partir da repeti\u00e7\u00e3o, do refor\u00e7o das conven\u00e7\u00f5es, da orienta\u00e7\u00e3o sobre o que se pode ou n\u00e3o se pode fazer. Por um lado, o trabalho garante, se bem-sucedido, a adequa\u00e7\u00e3o \u00e0s regras da conviv\u00eancia. Por outro lado, parte do princ\u00edpio de que existem c\u00e2nones a ser cumpridos e que cada pessoa deve se adequar a eles, em vez de ter suas caracter\u00edsticas peculiares compreendidas.<\/p>\n<p>Voltando a um exemplo pessoal, a segunda terapeuta de meu filho era comportamentalista. A substitui\u00e7\u00e3o foi propositalmente radical. Ela atendia numa cl\u00ednica de Botafogo (tamb\u00e9m zona sul, mas com um PIB bem inferior ao do Leblon) e estava sempre elegante, o que levou minha irm\u00e3 a cham\u00e1-la de \u00abBarbie terapeuta\u00bb. N\u00e3o se sujava, embora trabalhasse com crian\u00e7as, porque ficava sempre numa mesa diante delas, fiel \u00e0s regras do programa ABA. No caso de meu filho, queria, por exemplo, ensin\u00e1-lo o que era amarelo, azul, vermelho, mas na abstra\u00e7\u00e3o, sem casar as cores com nada que fizesse parte do cotidiano dele. Quando a paci\u00eancia se esgotava, ele dizia \u00abcoc\u00f4\u00bb e se fechava no banheiro, fugindo da chatice in\u00fatil.<\/p>\n<p>VOZES<\/p>\n<p>Sem querer tamb\u00e9m incorrer no erro do reducionismo, os extremos de que se falou at\u00e9 aqui refletem, a meu ver, o seguinte problema: como um dos pilares do autismo \u00e9 a defici\u00eancia na comunica\u00e7\u00e3o, os discursos produzidos s\u00e3o, em sua quase totalidade, sobre a s\u00edndrome e sobre as pessoas afetadas por ela. H\u00e1 disputas pelas representa\u00e7\u00f5es do autismo: catastrofismo x esperan\u00e7a; educa\u00e7\u00e3o especial x inser\u00e7\u00e3o escolar; psican\u00e1lise x comportamentalismo&#8230; \u00c9 um grande alento quando surgem vozes, por assim dizer, de dentro do autismo.<\/p>\n<p>A que mais me impressionou em tempos recentes foi a de Carly Fleischmann, uma adolescente canadense que, ap\u00f3s viver 11 anos fechada em si mesma, abriu-se para o mundo a partir do computador. Passou a escrever como ningu\u00e9m supunha que ela pudesse. E come\u00e7ou, digitando, a falar de sua condi\u00e7\u00e3o e a responder sobre autismo a quem a consulta. Na \u00faltima vez em que vi, sua p\u00e1gina no Face- book estava com 69.561 \u00abcurti\u00bb. No site brasileiro em que descobri a hist\u00f3ria, o texto sobre Carly tem 113 mil compartilhamentos.<\/p>\n<p>\u00c9 enriquecedor ver o curta-metragem \u00abCarly&#8217;s Cafe\u00bb, feito a partir dos relatos dela. A c\u00e2mera filma do ponto de vista de Carly, mostrando como uma pessoa com autismo \u00e9 sens\u00edvel a sons e outros est\u00edmulos, e como ela se frustra por n\u00e3o conseguir expressar o que quer.<\/p>\n<p>O ingl\u00eas Mark Haddon n\u00e3o \u00e9 autista, mas escreveu em 2006 um bel\u00edssimo romance, narrado por um adolescente que tem a s\u00edndrome. \u00abO Estranho Caso do Cachorro Morto\u00bb [trad. Luiz Antonio Aguiar, Record, 288 p\u00e1gs., R$ 37,90] reproduz, inclusive com mapas e desenhos, como funciona a cabe\u00e7a de um autista obcecado por c\u00e1lculos e que segue seu racioc\u00ednio l\u00f3gico para tentar descobrir quem matou um cachorro, fato do qual \u00e9 suspeito. Dos muitos t\u00edtulos dessa minibiblioteca tem\u00e1tica que acabei formando, esse \u00e9 um dos meus favoritos.<\/p>\n<p>Para quem vive pr\u00f3ximo do tema, o caso paradigm\u00e1tico de sucesso \u00e9 o da norte-americana Temple Grandin.<\/p>\n<p>Hoje uma senhora de 65 anos, Grandin foi uma crian\u00e7a condenada por m\u00e9dicos a passar a vida internada. Trilhou outro caminho gra\u00e7as, principalmente, \u00e0 sua paix\u00e3o por animais. Inventou o m\u00e9todo menos sofrido &#8211;e largamente mais utilizado&#8211; de abate do gado, que n\u00e3o percebe que vai morrer. Foi tema do belo ensaio que d\u00e1 nome ao livro \u00abUm Antrop\u00f3logo em Marte\u00bb [trad. Bernardo Carvalho, Companhia das Letras, 352 p\u00e1gs., R$ 54], do m\u00e9dico e escritor ingl\u00eas Oliver Sacks &#8211;a express\u00e3o do t\u00edtulo \u00e9 como Grandin define um autista. Escreveu em 1986, com o aux\u00edlio da jornalista Margaret M. Scariano, a autobiografia \u00abUma Menina Estranha\u00bb [trad. Sergio Flaksman, Companhia das Letras, 200 p\u00e1gs., esgotado]. Foi tema do filme \u00abTemple Grandin\u00bb (2010), com Claire Danes em seu papel. E palestras suas est\u00e3o dispon\u00edveis no YouTube.<\/p>\n<p>Aprendi lendo Grandin que mesmo os autistas pouco ou nada verbais entendem praticamente tudo o que \u00e9 dito \u00e0 sua volta. Passei a ser mais cuidadoso e a respeitar mais os longos sil\u00eancios do meu filho.<\/p>\n<p>O ge\u00f3logo baiano Argemiro Garcia \u00e9 uma refer\u00eancia no Brasil entre pais de pessoas com autismo. Coordena a maior lista de discuss\u00e3o sobre o tema na internet e, \u00e0 frente da Afaga (Associa\u00e7\u00e3o de Familiares e Amigos da Gente Autista), participa de campanhas importantes. Em um texto inicialmente dirigido \u00e0s m\u00e3es, \u00abBem-vinda \u00e0 Montanha-russa\u00bb, ele afirma que \u00e9 dispens\u00e1vel perguntar se nossos filhos ser\u00e3o como Temple Grandin. \u00abEu jamais vou conseguir ser como ela!\u00bb, ressalta, antes de tocar num ponto fundamental para quem tem um filho com autismo: \u00abDuvido que ele venha a se tornar um canalha. Isto, nunca ouvi falar que um autista fosse\u00bb. Infelizmente, por n\u00e3o saberem mentir e manipular, ficam mais vulner\u00e1veis a canalhas mentirosos e manipuladores.<\/p>\n<p>Acho que \u00e9 por isso que nos indignamos tanto quando ouvimos a palavra \u00abautista\u00bb usada como ofensa &#8211;substituindo, por exemplo, \u00abmongoloide\u00bb e \u00abretardado mental\u00bb, hoje n\u00e3o t\u00e3o ouvidas, felizmente. Esse uso \u00e9 muito comum entre pol\u00edticos. E ningu\u00e9m vai querer o diagn\u00f3stico do pr\u00f3prio filho na boca de um Renan Calheiros, de um Eduardo Cunha. Mas a estupidez \u00e9 democr\u00e1tica: o adjetivo tamb\u00e9m j\u00e1 foi endere\u00e7ado pelo intelectual Emir Sader a Ana de Hollanda, ex-ministra da Cultura.<\/p>\n<p>Por mais santa que seja a nossa ira, n\u00e3o somos policiais da l\u00edngua. Temos que moderar nossa ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Escrevi v\u00e1rias vezes aqui a palavra \u00abautista\u00bb. Mas ela vem sendo banida dos discursos de pais e profissionais, que a consideram estigmatizante por transformar uma caracter\u00edstica em algo que define totalmente a pessoa, nublando sua subjetividade. Pois imaginem se, num texto de 17 mil toques, eu tivesse de escrever sempre \u00abpessoa com autismo\u00bb. Prefiro mandar \u00e0s favas o que vejo como preciosismo.<\/p>\n<p>O politicamente correto tamb\u00e9m quer nos for\u00e7ar a dizer que \u00e9 muito legal ter filhos com determinados problemas, como se isto nos tornasse seres humanos melhores. Quando vejo programas de TV sobre a fam\u00edlia Kirton (um casal americano, John e Robin, e seus seis filhos autistas), fico me perguntando que tipo de fanatismo religioso impede dois adultos de parar de procriar se est\u00e1 claro que a combina\u00e7\u00e3o de seus genes \u00e9 problem\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u00abQuando se tem filhos deficientes, \u00e9 preciso suportar ouvir muita bobagem\u00bb, escreve o franc\u00eas Jean-Louis Fournier, pai de dois meninos com problemas gen\u00e9ticos (n\u00e3o autistas) em \u00abAonde a Gente Vai, Papai?\u00bb [trad. Marcelo Jacques de Moraes, Intr\u00ednseca, 160 p\u00e1gs., R$ 9,90], um livrinho que concilia, sem censuras, amor e humor. \u00abH\u00e1 tamb\u00e9m os que dizem: &#8216;O filho deficiente \u00e9 um presente dos C\u00e9us&#8217;. E n\u00e3o dizem isso como piada. Raramente s\u00e3o pessoas que t\u00eam filhos deficientes. Quando se recebe esse presente, d\u00e1 vontade de dizer aos C\u00e9us: &#8216;Ah, n\u00e3o precisava&#8230;&#8217;.\u00bb<\/p>\n<p>Mesmo em forma de sarcasmo, \u00e9 poss\u00edvel manter a alegria quando se tem algo como o autismo t\u00e3o perto, t\u00e3o dentro de voc\u00ea. Se n\u00e3o for assim, \u00e9 imposs\u00edvel suportar. Mas n\u00e3o subestimem nossa ira. Somos mais incontrol\u00e1veis do que nossos filhos.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/1247106-o-autismo-na-era-da-indignacao.shtml\">http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/1247106-o-autismo-na-era-da-indignacao.shtml<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>17\/03\/2013 &#8211; 08h03 LUIZ FERNANDO VIANNA ESPECIAL PARA A FOLHA RESUMO Pai de um menino com autismo, jornalista faz apanhado dos discursos sobre a s\u00edndrome, tanto no campo social e midi\u00e1tico como nos estudos cient\u00edficos. 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